Rob Westrich
Rob Westrich

‘Nunca estive em um período de tanta ansiedade como agora’, diz gestor

Gestor avalia momento atual como período de grandes incertezas e diz que famílias têm de se preparar para risco

Entrevista com

Charles A. Lowenhaupt, CEO da Lowenhaupt Global Advisor

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 05h00

Conselheiro de investimentos e sucessão patrimonial para famílias muito ricas ao redor do mundo, Charles A. Lowenhaupt avalia que o momento vivido pelos investidores atualmente chega a ser pior que a crise de 2008.

“Estou neste ramo há 40 anos e nunca estive em um período de tanta ansiedade”, afirma. Ele é o presidente da Lowenhaupt Global Advisor, um family office americano, além de sócio do Lowenhaupt & Chasnoff, que diz ser o primeiro escritório de advocacia dos Estados Unidos a focar seu trabalho em tributação – o escritório foi fundado por seu avô em 1908. 

Lowenhaupt afirma que, em um momento como o atual, os investidores devem organizar seu portfólio para suportar melhor a volatilidade. Neste mês, ele lança no Brasil seu livro Freedom from Wealth. Aqui, terá o título de Patrimônio e Liberdade e tem parceria de Leonardo Wengrover, sócio-fundador da W Advisor que, entre outras medidas, trabalhou para adaptar o conteúdo à realidade brasileira. A seguir, trechos da entrevista. 

Em 2008, em entrevista ao jornal ‘The New York Times’, o sr. falava sobre a crise e como aconselhava seus clientes. Agora estamos vivendo um momento tenso com as Bolsas mundiais em razão do coronavírus. O que muda?

Estou neste ramo há 40 anos e nunca estive em um período de tanta ansiedade entre pessoas do mundo todo. Não é só o coronavírus, é a incerteza sobre estarmos deixando a globalização, o que as pessoas sentem que está acontecendo. É a incerteza sobre o que vai acontecer daqui para frente. Acho que o que estamos vivendo agora é mais dramático. As pessoas não estão certas de para onde o mercado está indo.

Está pior que em 2008?

Sim, porque em 2008 as pessoas sentiam que havia líderes ao redor do mundo, que os bancos centrais poderiam lidar com o que estava acontecendo. Havia muita insegurança, não me entenda mal, mas hoje o problema parece muito grande e difícil de lidar. 

As taxas de juros no mundo todo estão cada vez mais baixas e as economias não voltam a crescer. A impressão é de que a política monetária dos bancos centrais não está funcionando.

Esse é um risco que precisa ser levado em conta na gestão de patrimônio. Assim, a primeira pergunta é: você tem dinheiro suficiente para cobrir despesas por um ano? Quando você tem caixa, a grande questão não será buscar uma taxa de juros máxima mas, sim, como manter esse patrimônio seguro. Temos visto mais famílias perderem dinheiro por aderir a altas taxas de juros em títulos de crédito, do que por investir em boas empresas. Para investir, você tem de saber se aquele é um bom negócio. Um portfólio bem construído de ações tem ido extraordinariamente bem num horizonte de longo prazo. Se eu estivesse aconselhando brasileiros, diria: certifique-se de que tem caixa suficiente, então diversifique algo em torno de 20% ou 30% em títulos (de governo ou dívidas) e ponha o resto em boas ações. Diria ainda: não ponha mais que 2% ou 3% do seu patrimônio em cada um dos papéis. Compre ações de empresas globais. 

Porque é tão importante investir em empresas globais?

Esse é o caminho para lidar com alguns desafios. Por exemplo, sei sobre negociar moedas. Mas não importa quanto eu saiba, uma empresa internacional sabe mais sobre isso. Logo, comprar ações, cotas dessa empresa faz mais sentido do que comprar moedas estrangeiras. 

No último ano, a Bolsa brasileira registrou recorde de CPFs ativos. Que conselho o senhor daria para esses novos investidores?

As lições a serem aprendidas são lições de governança. As pessoas acham que podem comprar ações e títulos quase intuitivamente, mas não é assim. Você tem de ter um processo e a diversificação é importante. É preciso reconhecer que haverá volatilidade e se certificar de que tem dinheiro em caixa, nas moedas corretas, para atravessar esses momentos. 

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