'Nunca tinha visto situação como esta', diz soldador

Montadoras têm 20 mil funcionários em excesso,se for levada em conta a produção de 2009

O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2015 | 02h05

A alta ociosidade nas fábricas gera excesso de pessoal. A produção de veículos prevista para este ano é de cerca de 3 milhões, número próximo ao de 2009, quando o setor empregava 124 mil pessoas. Hoje, emprega 144 mil. Significa que as fábricas têm 20 mil pessoas a mais para fazer o mesmo volume de carros.

Questionado sobre essa comparação, o presidente da Anfavea, Luiz Moan, diz não ter como calcular o que de fato é excedente. "Parte desse pessoal está nas novas fábricas inauguradas nos últimos anos", afirma. "Mas é certo que temos excedentes, por isso as empresas estão adotando medidas como lay-off (suspensão temporária dos contratos de trabalho) e PDVs (programas de demissão voluntária)."

A maior fabricante de caminhões e ônibus do País, a Mercedes-Benz, tem 750 trabalhadores em lay-off desde julho na fábrica de São Bernardo do Campo (SP) e 170 na de Juiz de Fora (MG).

"Há um sentimento de angústia, pois todos nós queremos voltar ao trabalho", diz Caio César de Viveiros, que trabalha como soldador na fábrica do ABC paulista. Ele tem 28 anos e entrou na Mercedes ainda adolescente, com 16 anos, como aluno do Senai. "Nunca tinha visto uma situação como esta", diz.

O metalúrgico teme pelo futuro pois, da parte da empresa, só ouve dizer que não há expectativa de melhora do mercado no curto prazo. Casado há dois anos, ele adquiriu um apartamento financiado por 30 anos e vê o atual momento com apreensão. "Seria muito complicado perder o emprego."

Jair Nery de Andrade, de 51 anos, funcionário da área de pintura da General Motors de São Caetano do Sul (SP) é outro que afirma nunca ter vivenciado situação como a atual. Na empresa há 30 anos, conta que já passou por várias crises, "mas nenhuma tão negra como a atual".

Andrade está no grupo de 950 trabalhadores da GM em lay-off, com retorno previsto para abril. É a primeira vez que é dispensado num programa desse tipo. "Estou inseguro, com medo. Fico pensando na vida e não sei o que farei se perder o emprego". Ele é casado e tem três filhos. O mais velho, de 26 anos, também trabalha na GM e não está no lay-off. "Torço para o mercado melhorar para que meu filho mais novo, de 19 anos, também trabalhe na GM."

"O setor automotivo está estrangulado", diz o presidente da MA8 Management Group, Orlando Merluzzi. Ele afirma que, nos últimos 14 anos, a produção de veículos aumentou 87%, enquanto a produção por empregado cresceu 34%.

Para o consultor, o setor ainda deverá fazer ajustes no quadro de pessoal para retomar o equilíbrio entre produção, vendas e faturamento. Segundo ele, "qualquer movimento contrário ficará por conta das novas fábricas que entrarão em produção nos próximos dois anos."/ C.S.

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