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Dados econômicos recentes mostraram que a recessão prevista anteriormente agora é menos provável

Albert Fishlow, O Estado de S. Paulo

19 de janeiro de 2020 | 05h00

O ano de 2020 começa com muitos prognósticos positivos, internacionais e nacionais, de um modesto crescimento econômico. O Banco Mundial indicou que uma recuperação do comércio deve ocorrer, de 1,4% ao ano para 1,9%. O que ainda está abaixo da expansão média dos anos precedentes. O crescimento será um pouco maior, 2,5% comparados com os 2,4% no ano anterior. Nos últimos anos, os dois índices têm melhorado lentamente.

O próprio Trump foi recompensado com uma semana repleta de realizações. O seu USMCA, sucessor do Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte – que ele afirmou ser o pior acordo da história) – foi aprovado pelo Senado por maioria. Há ganhos palpáveis no campo da produção de veículos nacional, como também dos esforços para aumentar os salários dos trabalhadores mexicanos, ambos com apoio dos sindicatos. O meio ambiente agora faz parte do tratado, como também a exclusão de direitos de patentes de medicamentos.

Outra conquista foi o acordo satisfatório com a China em assuntos comerciais que vinham acarretando tarifas progressivamente mais altas e menos comércio entre os dois países. Mais uma vez o mérito é todo de Trump.

Sem dúvida, a China regularmente usou de manipulações para reduzir os preços das exportações de produtos de empresas estatais, buscou transferir tecnologia de produtores estrangeiros como condição para investimentos e tentou assegurar o acesso a técnicas de alto nível por meios duvidosos. Houve um forte apoio da comunidade empresarial dos EUA, agricultores e trabalhadores. O que resta saber é se o processo de negociação vai continuar e se a China pretende realmente atuar em condições equitativas.

Dados econômicos recentes mostraram que a recessão prevista anteriormente agora é menos provável, como também a relação ascendente entre prazos dos títulos e juros foi substituída por taxas de curto prazo mais altas do que as de longo prazo. O desemprego está historicamente baixo. Os juros estabelecidos pelo Federal Reserve caíram para níveis mínimos e as vendas durante as festas de fim de ano tiveram recordes positivos. As bolsas americanas continuam a ter altas recorde. E se pararmos aí, Trump seria o grande favorito para vencer a reeleição.

Mas a política ainda desempenha um grande, talvez dominante, papel. No país, muitas pessoas estão indignadas com a tendência de garantir benefícios para os ricos e não para os pobres, e as finanças florescerem ao passo que a renda do trabalhador dificilmente sobe. Falta mais educação e capacitação da mão de obra que vem perdendo empregos. A produtividade é importante. As fabricantes americanas não são mais líderes globais. A Lei de Vantagem Comparativa ainda não foi abolida.

O Oriente Médio explodiu. A morte do general Suleimani desencadeou um processo que devia ter sido previsto, mas não foi. Assassiná-lo foi um triunfo pessoal para Trump, maior do que o assassinato de Zarqawi. Sua oferta de negociar pessoalmente com o Irã foi rejeitada, com uma promessa de futuras retaliações. Agora o Iraque votou pela saída das tropas dos EUA do país, o que foi negado. A região no momento desperta uma enorme preocupação.

Por último, teve início o processo de impeachment. E é mais do que uma farsa, como o presidente sempre alega. Trump quis verificar rumores imprudentes sobre uma intervenção ucraniana, e não do Kremlin, para tentar contestar sua eleição em 2016. E também queria mais. Enviou então seu advogado, Rudy Giuliani, para fazer uma investigação na Ucrânia. Giuliani, finalmente agora acusado, imprudentemente tentou investigar o caso, sem sucesso. E sem nenhuma base, procurou envolver Joe Biden e seu filho.

O que ocorreu, pelo contrário, foram atrasos constantes da ajuda militar para a Ucrânia, aprovada pelo Congresso, com evidências de um provável envolvimento de Trump. Não só isto. Pessoas dentro do governo Trump, intimadas a prestar testemunho, não atenderam às convocações. Muitas no Departamento de Estado se apresentaram. Até uma nova testemunha, que trabalhou antes com Giuliani, agora indiciado, forneceu muita informação.

Todo este processo deve durar um mês. Nesse ínterim, concluo com uma frase de Nancy Pelosi, presidente da Câmara: “Se não agirmos agora estaríamos negligenciando nosso dever. É trágico que as ações imprudentes do presidente tornem o impeachment necessário. Ele não nos deu outra opção”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE 

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