DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
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Nuvens mais escuras no horizonte da economia

Dificuldade do governo Bolsonaro em tocar suas pautas se reflete na queda dos índices de confiança e das projeções para o PIB, enquanto um novo corte no Orçamento é preparado

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2019 | 11h57

Caro leitor,

As fragilidades políticas do governo, definitivamente, não têm feito bem à economia. O presidente Jair Bolsonaro tem sofrido derrotas consecutivas no Congresso, que se rebelou contra a falta de diálogo entre Executivo e Legislativo e quer mostrar seu poder. O que aconteceu esta semana é uma prova cabal disso.

Sem empenho efetivo do governo, a Comissão Mista do Congresso que analisa a medida provisória da reforma administrativa tirou do Ministério da Justiça, do ex-juiz Sérgio Moro, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e o devolveu ao Ministério da Economia.

Essa dificuldade da administração Bolsonaro em tocar suas pautas tem se refletido diretamente no clima econômico. O que se tem visto, semana após semana, são os índices de confiança ­– da indústria, do varejo, dos consumidores ­– caindo, o que mostra que aquela expectativa bastante positiva do mercado com o desempenho de um governo de viés mais liberal na economia vem se dissipando.

Nessa linha, nosso colunista Fábio Alves  fez uma comparação interessante entre o que está acontecendo no Brasil, onde um presidente de direita foi eleito, e no México, onde o presidente é de esquerda. Enquanto aqui o mercado tem se frustrado com as dificuldades de Bolsonaro, que vê sua popularidade cair também entre a população, o presidente mexicano Manuel Lopez Obrador  surpreendeu os investidores ao demonstrar um grande pragmatismo, em busca do equilíbrio das contas públicas. Assim, a popularidade do esquerdista, antes temido pelo mercado, vem se ampliando.

No Brasil, com uma agenda empacada no Congresso e uma economia totalmente estagnada,  o problema das contas públicas vai se agravando. Na quinta-feira, 9, o secretário especial da Fazenda, Waldery Rodrigues, admitiu  que, com o PIB crescendo menos que o previsto, será preciso fazer um novo contingenciamento do Orçamento federal. No início do ano, o governo trabalhava com uma perspectiva de crescimento de 2,5% da economia este ano.

Depois, reduziu essa projeção para 2,2% - e teve de fazer um corte no Orçamento de  R$ 30 bilhões . Agora, as projeções do governo para o PIB já estão mais perto de 1,5%. No mercado, há quem fale em algo mais perto de 1%.

O bloqueio de R$ 30 bilhões já faz estragos no dia a dia dos ministérios. Como mostraram as repórteres Adriana Fernandes e Idiana Tomazelli, há problemas no pagamento de bolsas de estudo, nos repasses para o programa Minha Casa, Minha Vida  e nos compromissos do governo brasileiro com  organismos internacionais.

Um novo contingenciamento vai elevar de maneira exponencial esses problemas.   A avaliação dentro da equipe econômica é que o governo pode sofrer um “apagão” administrativo até maior do que o ocorrido no governo do ex-presidente Michel Temer, quando faltou dinheiro, por exemplo, para a confecção de passaportes.

O problema é que não parece haver uma solução muito clara chegando para uma sacudida na economia, que elevasse a arrecadação e melhorasse o quadro fiscal. Pelo contrário. Os números que vêm sendo divulgados mostram um quadro em deterioração. Para o primeiro trimestre, boa parte dos economistas já fala em queda na atividade econômica.

Para nosso colunista José Roberto Mendonça de Barros , do ponto de vista do PIB, o ano já está perdido. E, segundo nossa também  colunista Zeina Latif, “há um cheiro de recessão no ar”. Sob essa ótica, não há como negar que esses  quatro meses de governo foram bem frustrantes. 

Leia mais na Supercoluna "Bolsonaro e a Economia":

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