Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

NYT: 'Torneiras começam a secar na maior cidade brasileira'

Falta d’água em São Paulo, capital econômica do Brasil, pode prejudicar os esforços para reforçar uma economia estagnada que enfrenta preços baixos para as principais commodities exportadas

Simon Romero, THE NEW YORK TIMES

19 Fevereiro 2015 | 12h14

SÃO PAULO - Contando com o Amazonas e outros grandes rios, uma série de imensas represas e um oitavo de toda a água doce do mundo, o Brasil é às vezes descrito como “Arábia Saudita das águas”, com tamanha fartura desse cobiçado recurso que é como se o país vivesse acima de um mar de petróleo.

Mas, na maior e mais rica cidade brasileira, um cenário mais distópico está se formando: as torneiras estão começando a secar.

Enquanto o Sudeste do País enfrenta a pior seca em quase um século, problema agravado pela poluição dos rios, desmatamento e crescimento populacional, o maior sistema de reservatórios d’água atendendo à população de São Paulo está próximo do esgotamento. 

Muitos moradores já enfrentam cortes esporádicos no fornecimento, que em alguns casos dura dias. Os governantes dizem que um racionamento drástico pode ser necessário, com o serviço de fornecimento de água funcionando apenas dois dias por semana.

A portas fechadas, o quadro apresentado é mais sombrio. Em reunião gravada secretamente e vazada para a imprensa local, um dos diretores da empresa de fornecimento de água da cidade, Paulo Massato, disse que os moradores de São Paulo deveriam ser alertados para saírem da cidade, pois “aqui não vai ter água para banho, para limpeza da casa”.

“Estamos testemunhando uma crise hídrica sem precedentes em uma das maiores cidades industriais do mundo”, disse Marússia Whately, especialista em recursos hídricos do Instituto Socioambiental, grupo ambientalista brasileiro. “Por causa da degradação ambiental e covardia política, milhões de pessoas em São Paulo estão agora se perguntando quando a água vai acabar.”

Para alguns habitantes dessa congestionada megacidade de arranha-céus futuristas, condomínios fechados e imensas favelas, a crise de lento desenrolar já significou passar dias sem água.

“Imagine passar três dias sem água e administrar um negócio de maneira minimamente higiênica”, disse Maria de Fátima Ribeiro, de 51 anos, dona de um bar no Parque Alexandra, bairro periférico da região metropolitana. “Isso é Brasil, onde o ser humano é tratado pior do que cachorro pelos nossos políticos.”

Alguns moradores começaram a perfurar seus próprios poços perto das casas e prédios residenciais, ou coletar água em baldes para lavar roupas ou ativar a descarga do vaso sanitário. As escolas públicas proibiram os alunos de usarem a água para escovar os dentes, e alteraram o cardápio do almoço para oferecer sanduíches, evitando refeições em pratos que teriam de ser lavados.

Os governantes prometem soluções ambiciosas, como novos reservatórios. 

Mas esses demorariam para ficar prontos, e muitos nessa vasta região metropolitana de 20 milhões de pessoas estão assustados com a previsão do serviço brasileiro de monitoramento para desastres naturais, segundo a qual o principal sistema de reservatórios da cidade poderia secar em 2015.

Especialistas dizem que a origem da crise vai além da recente seca e inclui uma série de fatores interligados: o crescimento populacional acentuado da cidade no século 20; um sistema cheio de vazamentos crônicos que desperdiça uma parcela imensa da água antes que chegue aos lares; poluição grave nos rios Tietê e Pinheiros, que cruzam a cidade (o cheiro provoca náusea naqueles que se aproximam); e a destruição das matas e pântanos adjacentes que, historicamente, absorviam a umidade e a água, transferindo-a aos reservatórios.

O desmatamento na bacia do Amazonas, a centenas de quilômetros de distância, também pode ter contribuído para a crise da água em São Paulo. A destruição da mata diminui sua capacidade de liberar umidade no ar, diminuindo a chuva no Sudeste brasileiro, de acordo com estudo recente preparado por um dos principais cientistas climáticos do País.

Os governantes também apontam para o aquecimento global. “A mudança climática chegou para ficar”, disse o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, esse mês. “Quando chove, chove demais, e quando há seca, fica seco demais.”

A redução dos reservatórios de água a níveis críticos também afeta os estados de Rio de Janeiro e Minas Gerais, também poderosos, enquanto cidades menores da região chegaram a cancelar o Carnaval essa semana por causa da preocupação com a falta de água para limpar o lixo das ruas após as festividades.

Mas a crise de São Paulo é particularmente aguda. Os funcionários da Sabesp, empresa de fornecimento de água controlada pelo Estado de São Paulo, admitiu reduzir a pressão da água no sistema de distribuição. Embora isso tenha diminuído na prática o volume de água em circulação no sistema, as autoridades insistiram com frequência que isso não seria um racionamento, provocando confusão e raiva entre aqueles que não conseguem obter água.

A empresa de fornecimento diz estar trabalhando num projeto grandioso para obter água de uma bacia hidrográfica próxima e construir novos reservatórios, mas algumas dessas iniciativas não devem ser concluídas antes de meados do próximo ano.

“É um sistema de águas obviamente mal administrado”, disse Newsha Ajami, diretora do Woods Institute for the Environment, da Universidade Stanford, que se reuniu recentemente com as autoridades locais. “Estão pensando nesses megaprojetos, que deveriam ser a última solução”, quando medidas agressivas deveriam ter sido adotadas meses atrás para “reduzir o consumo e o desperdício”.

Calcula-se que mais de 30% da água tratada da cidade seja desperdiçada em vazamentos e ligações clandestinas. Em pronunciamento, a empresa de fornecimento de água disse estar trabalhando para reduzir os vazamentos. Descontos passaram a ser oferecidos para reduzir o consumo, e multas pesadas são aplicadas a partir desse mês naqueles que usarem água demais.

O racionamento em si - quando o serviço seria de fato interrompido, e não apenas reduzido - “ainda está em debate e estudo”, disse a Sabesp, empresa de fornecimento de água, depois que as chuvas da semana passada elevaram minimamente o nível do reservatório. Mas, para aqueles que já vivenciam o racionamento na prática, a posição das autoridades só pode ser descrita como frustrante, na melhor das hipóteses.

“Tenho ódio, ódio do governador e da Sabesp”, disse Márcia Oliani, de 54 anos, administradora financeira de uma galeria de arte que ficou seis dias sem água no seu apartamento. “Gostaria de atear fogo neles. Falharam completamente em alertar a população, e continuam a mentir descaradamente a respeito do assunto.”

Especialistas em recursos hídricos alertam que a crise poderia estar ainda em seus estágios iniciais, o que significa que a falta d’água em São Paulo, capital econômica do Brasil, poderia prejudicar os esforços para reforçar uma economia nacional estagnada que enfrenta preços baixos para as principais commodities exportadas pelo País.

“Se não trouxerem grandes quantidades de água por caminhão, a situação ainda vai piorar”, disse Steven Solomon, autor de Water: The Epic Struggle for Wealth, Power and Civilization, comparando a crise com a situação de cidades na Índia e no Paquistão onde os moradores saem em busca de água ou compram de caminhões-pipa no mercado negro.

Num país em que a abundância de água é fonte de orgulho nacional, onde esferas de cristal contendo a água de mais de 15 rios brasileiros eram exibidas no Museu do Ipiranga, a crise faz alguns questionarem como a grande cidade global brasileira chegou a este ponto.

Ignácio de Loyola Brandão, autor do romance Não verás país nenhum, de 1981, que imagina uma São Paulo atingida pela degradação ecológica e falta crônica de água, disse aos repórteres não estar surpreso com os problemas da água, citando a relutância de muitos lares em limitar seu próprio consumo e a indiferença de muitos brasileiros diante dos escândalos e desastres naturais.

“A maioria não se indigna com nada”, disse ele, “é como se avançássemos confortavelmente para nosso próprio fim”.

/Tradução de Augusto Calil

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