Siphiwe Sibeko/Reuters
Siphiwe Sibeko/Reuters

The Economist: O 1º choque de energia da era verde

Há graves problemas na transição para a energia limpa, com a meta de zerar emissões de carbono

The Economist, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2021 | 05h00

No próximo mês, líderes de todo o mundo vão se reunir na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-26), dizendo o que pretendem fazer para zerar as emissões globais líquidas de carbono até 2050. À medida que se preparam para se comprometer com suas partes nesse esforço de 30 anos, a primeira grande ameaça da energia da era verde se revela diante dos olhos deles. Desde maio, o preço de uma cesta de petróleo, carvão e gás aumentou 95%. A Grã-Bretanha, anfitriã da cúpula, reativou suas usinas a carvão, os preços da gasolina americana chegaram a US$ 3 o galão, apagões atingiram a China e a Índia e Vladimir Putin acaba de lembrar à Europa que seu abastecimento de combustível depende da boa vontade russa.

O pânico é um lembrete de que a vida moderna precisa de energia abundante: sem ela, as contas se tornam caras demais, as casas congelam e os negócios ficam estagnados. O pânico também expôs problemas mais profundos conforme o mundo muda para um sistema de energia menos poluente, incluindo investimento inadequado em energias renováveis e combustíveis fósseis de transição, riscos geopolíticos crescentes e amortecedores de segurança frágeis nos mercados de energia. Sem mudanças rápidas, haverá mais crises de energia e, talvez, uma revolta contra as políticas climáticas.

A ideia de tal escassez parecia ridícula em 2020, quando a demanda global caiu 5%, a maior redução desde a Segunda Guerra, provocando cortes de custos no setor de energia. Mas, com a recuperação da economia, a demanda aumentou, mesmo com os estoques ficando perigosamente baixos. Reservas de petróleo estão em apenas 94% de seu nível habitual, os de gás europeu estão em 86% e os de carvão indiano e chinês estão abaixo de 50%.

O mundo talvez ainda escape de uma grave recessão de energia: os pequenos problemas podem ser resolvidos, e a Rússia e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) talvez aumentem a contragosto a produção de petróleo e gás. No mínimo, porém, o custo será inflação mais alta e crescimento mais lento.

Três problemas são motivos de preocupação. Em primeiro lugar, o investimento em energia está funcionando na metade do necessário para alcançar a ambição de atingir o valor líquido de zero até 2050.

Os gastos com energias renováveis precisam aumentar. E a oferta e a demanda de combustíveis fósseis poluentes precisam ser reduzidas em conjunto. Os combustíveis fósseis atendem a 83% da demanda primária. A combinação deve passar do carvão e do petróleo para o gás, que tem menos da metade das emissões do carvão. As ameaças legais, a pressão dos investidores e o medo das regulamentações levaram o investimento em combustíveis fósseis a cair 40% desde 2015.

O gás pode causar problemas. Muitos países, principalmente na Ásia, precisam de um combustível para usar na transição. Além de usar gasodutos, a maioria importa gás natural liquefeito (GNL). Pouquíssimos projetos estão entrando em operação. Segundo a Bernstein, empresa de pesquisa, o déficit global de GNL em relação à demanda pode subir dos atuais 2% para 14% em 2030.

O segundo problema é a geopolítica: as democracias ricas abriram mão da produção de combustíveis fósseis e o abastecimento mudou para autocracias com menos escrúpulos e custos mais baixos, incluindo a administrada por Putin.

A cota da produção de petróleo da Opep mais a Rússia talvez aumente dos atuais 46% para 50%, ou mais, até 2030. A Rússia é a fonte de 41% do gás importado pela Europa e sua influência crescerá quando inaugurar o gasoduto Nord Stream 2 e conquistar mercados na Ásia.

O último problema é o projeto falho dos mercados de energia. A desregulamentação desde os anos 1990 fez com que muitos países passassem de estatais decrépitas para sistemas privados nos quais os preços da eletricidade e do gás são definidos pelos mercados, oferecidos por fornecedores concorrentes que aumentam a oferta se os preços disparam. Mas eles estão tendo dificuldade de lidar com a nova realidade de queda na produção de combustíveis fósseis, fornecedores autocráticos e uma parcela crescente de energia solar e eólica intermitente. Assim como o Lehman Brothers dependeu de empréstimos de um dia para o outro, algumas empresas de energia garantem fornecimentos para famílias e empresas que compram em um mercado à vista não confiável.

O perigo é de que o abalo diminua o ritmo da mudança. Esta semana, Li Keqiang, o primeiro-ministro da China, disse que a transição energética deve ser “segura e com um bom ritmo”, um código para usar o carvão por mais tempo. A opinião pública no Ocidente, inclusive nos Estados Unidos, apoia a energia limpa, mas pode mudar conforme os preços altos surjam.

Os governos precisam responder reformulando os mercados de energia. Amortecedores de segurança maiores devem absorver a escassez e lidar com a intermitência da energia renovável. Os fornecedores de energia deveriam manter mais reservas, assim como os bancos estocam capital. Os governos podem convidar as empresas para licitar contratos apoiados em fornecimento de energia.

A maioria das reservas será de gás, mas, em algum momento, tecnologias de bateria e de hidrogênio podem assumir o controle. Mais usinas nucleares, a captura e o armazenamento de dióxido de carbono, ou ambos, são vitais para fornecer energia limpa e confiável.

Uma oferta mais diversificada pode enfraquecer o domínio de países autocráticos ricos em petróleo, como a Rússia. Hoje, isso significa intensificar os negócios de GNL. Com o tempo, isso exigirá mais comércio global de eletricidade. Hoje, apenas 4% da eletricidade nos países ricos é comercializada internacionalmente, em comparação com 24% do gás global e 46% do petróleo. Construir redes submarinas é parte da resposta, e converter energia limpa em hidrogênio e transportá-lo em navios também pode ajudar.

Tudo isso exigirá que os gastos de capital em energia mais do que dobrem para US$ 4 trilhões a US$ 5 trilhões por ano. Da perspectiva dos investidores, a política é difícil de entender. Muitos países têm metas de zerar as emissões líquidas, mas nenhum plano de como conseguir isso e ainda não combinaram com o público que as contas e os impostos precisam aumentar. Um banquete móvel de subsídios para energias renováveis e obstáculos regulatórios e legais tornam o investimento em projetos de combustíveis fósseis arriscado.

A resposta ideal é um preço global do carbono que reduza implacavelmente as emissões, ajude as empresas a julgar quais projetos gerariam dinheiro e aumente as receitas fiscais para apoiar os perdedores da transição energética. No entanto, os esquemas de preços cobrem apenas um quinto de todas as emissões. Os líderes na COP-26 devem ir além das promessas e lidar com as letras miúdas de como a transição funcionará. Ainda mais se eles se reunirem sob lâmpadas movidas a carvão.  TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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