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O 1º grande teste de Bolsonaro

O maior risco é Bolsonaro jogar o MDB e Centrão nos braços da oposição

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2018 | 05h00

Para o mercado financeiro, com impacto nos preços da Bolsa e do dólar, o primeiro grande teste de um eventual governo Jair Bolsonaro, caso as pesquisas de intenção de voto confirmem a vitória do candidato do PSL no segundo turno da eleição presidencial, será a escolha dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. A eleição para a presidência das duas Casas ocorre em 1.º de fevereiro de 2019 e os investidores estão monitorando atentamente as movimentações e negociações em torno da escolha dos candidatos para as posições mais cobiçadas no Congresso.

Há muito tempo que a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado não assumia uma importância tão grande como a do ano que vem, pois, ao longo do processo até o pleito, o otimismo do mercado sobre o sucesso em relação ao eventual governo Bolsonaro poderá se consolidar ou se erodir.

Na visão dos investidores, quem Bolsonaro escolher apoiar para presidentes da Câmara e do Senado será um termômetro importante para medir se a sua eventual gestão será pautada por uma habilidade política que ainda o mercado não lhe confere.

Mais ainda: se ele poderá repetir um padrão da ex-presidente Dilma Rousseff, cuja falta de flexibilidade e habilidade política não permitiu tornar fiel uma ampla base de apoio e transformar essa coalizão em votos necessários para aprovação de reformas ou de medidas econômicas urgentes.

Nesse sentido, os investidores vão encarar o desempenho de Bolsonaro ao longo do processo para a escolha dos presidentes da Câmara e do Senado também como um termômetro para avaliar as chances de seu eventual governo de conquistar os 308 votos necessários para aprovar uma reforma da Previdência. “Esses eventos [eleição dos presidentes da Câmara e do Senado] servirão como sinais claros quanto à disposição do Bolsonaro de construir sua base no Congresso e aprovar reformas”, diz o economista-chefe de uma grande instituição financeira. “Basicamente, estamos monitorando a disposição do Bolsonaro em trazer o Centrão para dentro de sua base de apoio.”

Já um experiente gestor de uma administradora de recursos se diz preocupado com a movimentação de vários parlamentares do PSL, que saiu da eleição com a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados, mirando concorrer à presidência das duas Casas. “Se o PSL tentar disputar a presidência [da Câmara e do Senado], Bolsonaro corre o risco de refazer os erros de Dilma”, alerta o gestor. “Essa eleição para o comando no Congresso será uma amostra de como um governo Bolsonaro se comportaria em negociações políticas.”

E essa habilidade de negociação será testada já na decisão de Bolsonaro em escolher os candidatos certos para a eleição da presidência das duas Casas, os quais talvez tenham que surgir de um consenso com o Centrão. “Se essa eleição no Congresso em si não garantirá que reformas passarão, uma derrota pode acarretar consequências de longo prazo para passar qualquer coisa depois”, explica renomado economista de uma grande instituição estrangeira.

E quais os nomes para o comando das duas Casas que mais agradariam aos investidores, com impacto positivo nos preços dos ativos?

Por enquanto, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) é o favorito do mercado financeiro, que o vê como um parlamentar comprometido com a aprovação das reformas e com melhor trânsito do que outros nomes cotados para o cargo tanto com partidos de centro-direita, quanto os de esquerda.

Para o comando do Senado, o mercado ainda não escolheu um nome que lhe traria maior tranquilidade.

“Não está claro [quem seria melhor para o Senado]”, diz um experiente economista. “Eu diria um nome do MDB.” Já outro economista de uma instituição estrangeira acrescenta: “Mas Renan Calheiros (MDB-AL) na presidência do Senado não seria bom para Bolsonaro.”

Se no Senado, Bolsonaro não terá como ignorar o MDB, ainda a maior bancada, com 12 senadores, na Câmara o eventual presidente não pode deixar de lado o Centrão, que, embora com número menor de deputados eleitos, segue sendo uma força importante. O maior risco é, durante o processo de eleição para o comando das duas Casas, Bolsonaro alienar essas duas forças - MDB e Centrão - e jogá-las nos braços da oposição.

*É colunista do Broadcast

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