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O 2º turno já chegou

Se tudo continuar como está hoje, o segundo turno será marcado por insegurança

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2018 | 04h00

Após as mais recentes pesquisas de intenção de voto, o mercado financeiro já está com as atenções voltadas para um eventual segundo turno entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), passando a partir de agora a monitorar informações sobre os dois grandes pontos de interrogação que ainda pairam sobre essas duas candidaturas na cabeça de investidores e analistas.

Na visão do mercado financeiro, um desfecho da eleição presidencial considerado favorável – ou “market-friendly” no jargão em inglês – ao desempenho dos ativos brasileiros, em particular a Bolsa de Valores e a cotação do dólar ante o real, seria a vitória de Bolsonaro. Ou seja, se o candidato do PSL for eleito, a Bolsa sobe e o dólar cai ante o real.

Já a vitória de Haddad na eleição presidencial teria o efeito contrário: a bolsa cairia e o dólar poderia disparar, na visão de analistas e investidores que consideram hoje o retorno do PT ao Palácio do Planalto como um desfecho desfavorável ao mercado.

Mas tanto em relação ao candidato considerado como “market-friendly” quanto aquele percebido como desfavorável ao mercado, há dúvidas profundas que ainda deixam os investidores nervosos quanto aos rumos da economia em 2019, primeiro ano de mandato do novo presidente da República.

“Incertezas prevalecem sobre a aptidão e disposição dos dois candidatos presidenciais líderes (nas pesquisas de intenção de voto) para garantir o apoio necessário no Congresso a fim de adotar um pacote impopular e, ainda assim, crítico de reformas, visando reequilibrar a dinâmica da dívida do setor público e impulsionar o crescimento do PIB potencial”, dizem os estrategistas de ações do Credit Suisse, em relatório a clientes, intitulado “Comprando de volta o Brasil: já chegamos lá?”.

Uma maior convicção dos investidores em relação às credenciais para as reformas, como a da Previdência, do vencedor da eleição presidencial é um dos requisitos necessários listados pelos estrategistas do banco suíço para uma melhora na recomendação de investimento na Bolsa brasileira.

E quais são os dois pontos de interrogação que ainda pairam sobre Bolsonaro e Haddad?

No caso de Bolsonaro, a grande dúvida é sobre a sua governabilidade, pois, vindo de um partido nanico, os investidores questionam a sua capacidade de conseguir aprovar as reformas necessárias e as propostas feitas por Paulo Guedes, o coordenador do seu programa econômico, sem uma base ampla e fiel de apoio no Congresso.

Assim, notícias sobre uma eventual aliança com partidos do chamado Centrão ao longo do segundo turno podem turbinar o otimismo dos investidores, os quais também vão monitorar qualquer especulação sobre quem seria o responsável pela coordenação política num eventual governo Bolsonaro.

Já no caso de Haddad, que tem feito declarações consideradas mais moderadas de política econômica do que consta no programa de governo publicado pelo PT, os investidores questionam o quanto ele realmente caminhará mais para o centro e abandonará a postura mais radical do seu partido.

Chegou-se a especular na última semana que Haddad poderia convidar Henrique Meirelles, o atual candidato do MDB à eleição presidencial, para ser seu ministro da Fazenda e que manteria Ilan Goldfajn no Banco Central.

Para os analistas da corretora japonesa Nomura, a campanha de Haddad está tentando sinalizar um grau mais elevado de pragmatismo e de centrismo em um momento em que o apoio dos eleitores de Lula parece já ter se consolidado.

“Mas a avaliação de ‘market-friendliness’ (amistoso ou favorável ao mercado) de Haddad começa num ponto muito baixo”, ressaltaram os analistas da Nomura em relatório a clientes. “As mudanças econômicas necessárias ao País sob o novo governo incluirão uma reforma fiscal muito difícil - a disposição e a capacidade política do PT de fazê-la são muito questionáveis baseadas no seu histórico recente.”

Se Haddad chegar a anunciar ao longo do segundo turno o nome de Meirelles, por exemplo, os preços dos ativos brasileiros poderão reagir positivamente. Da mesma forma, se Bolsonaro anunciar o apoio oficial de alguns grandes partidos do Centrão, haverá um sentimento de euforia no mercado.

Se tudo continuar como está hoje, o segundo turno será marcado por insegurança e nervosismo por parte dos investidores. E a projeção atual do mercado de crescimento da economia brasileira em 2019 e 2020, de 2,50%, não passará de mera ilusão.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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