Nilton fukuda/Estadão
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Coluna

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'O ABC não vai virar uma Detroit', diz presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

Ao tomar posse para novo mandato, Rafael Marques garante que a região vai se transformar também em polo do setor aeronáutico

Entrevista com

Rafael Marques

CLEIDE SILVA, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2014 | 02h03

Aos 50 anos, 35 deles no setor metalúrgico, Rafael Marques tomou posse ontem para novo mandato de três anos à frente de um dos principais sindicatos de trabalhadores do Brasil, o dos Metalúrgicos do ABC. Marques afirma que trabalhará para fazer da região um polo de médio porte do setor aeronáutico. Ainda um importante centro automotivo, o ABC enfrenta a crise do setor, com empresas adotando férias coletivas, lay-off (suspensão de contratos) e programas de demissão voluntária.

Apesar de não ter sido escolhida por novas fábricas que chegam ao País, a região, diz o sindicalista, recebe investimentos: "O ABC não vai virar uma Detroit", diz, numa referência ao berço da indústria automotiva americana, que foi abandonado pelas montadoras. "Ainda estamos no jogo."

Qual o foco do novo mandato?

Vamos manter esforços para continuar sendo um interlocutor importante para as questões da política industrial dos setores automotivo e aeroespacial, com a chegada da Saab, que produzirá em São Bernardo do Campo os caças Gripen. A região poderá se tornar um médio polo de aviação e estamos nos preparando para ser interlocutores nessa área.

Em quê a atuação dos Metalúrgicos do ABC se difere dos demais sindicatos brasileiros?

Temos, há mais de dez anos, os comitês sindicais de empresas, que é nosso modelo de organização no local de trabalho. Esse modelo está crescendo no Estado de São Paulo - já há outros seis sindicatos de metalúrgicos que o adotaram. Acredito que podemos aperfeiçoar esse modelo de representação, combinado com o trabalho que fazemos de discutir política industrial, o futuro da categoria, de aprimorar as relações entre capital e trabalho. Esperamos que, no futuro, possamos ter também a participação de trabalhadores nos conselhos das empresas, como ocorre em países da Europa e nas estatais aqui no Brasil.

Qual a vantagem do modelo?

É uma atuação mais ampla em relação ao modelo anterior, com sindicatos distantes do dia a dia do trabalhador, sem compreender as transformações do mundo do trabalho, que são intensas.

Como o sr. vê a atual crise do setor automotivo, com empresas cortando produção, dando férias, adotando lay-off e PDV?

Temos um momento difícil porque as duas grandes montadoras da região vivem uma fase de reestruturação. A Mercedes-Benz está se reestruturando, chegou até a perder a liderança do mercado. Converteu a planta de Juiz de Fora (MG) para também fabricar caminhões e está em processo de negociação para decidir o que cada uma das fábricas fará no futuro. A Volkswagen abriu um ciclo novo de lançamento de produtos. Começou com o up! em Taubaté (SP) e vai chegar a vez da fábrica Anchieta, que a partir de 2015 receberá novos produtos. Esse quadro colaborou com as decisões de lay-off e PDV, mas sinto que estamos chegando num momento de estabilidade. É bom ressaltar que nem Ford, Scania e Toyota estão com grandes problemas, apesar do ano difícil.

O ABC perdeu indústrias e não atraiu novas montadoras. O sr. vê riscos de a região se transformar numa Detroit?

A Toyota está investindo. Vai trazer seu centro administrativo de São Paulo para cá, vai aumentar o número de empregos e poderá produzir carros híbridos em São Bernardo. A Ford retoma a produção de caminhões da Série F. A Volkswagen começou a produzir a nova Saveiro com linhas de armação, carroceria e pintura totalmente novas. Então, estão acontecendo coisas. O ABC não vai virar uma Detroit. Claro que há a questão da mão de obra. Tínhamos 109 mil trabalhadores em 2010 e agora, 98 mil. É uma meta a trabalhar.

O que é possível fazer?

Estamos tentando junto à Prefeitura de São Bernardo atuar na diversificação das oportunidades industriais da região, que é dependente demais do setor automotivo. A cidade dispõe de vários galpões industriais inativos. Dá para fazer muita coisa, por exemplo, para o segmento de defesa. Estamos conseguindo convencer boa parte do empresariado a investir. Recentemente, a Kostal investiu R$ 40 milhões para atualizar o parque de máquinas. A ZF está renovando o parque industrial. A Termomecânica ampliou e modernizou seu parque e comprou outras unidades para aumentar seu negócio. Temos na região um parque de máquinas muito bom. Ainda estamos no jogo.

O que o sr. espera para esse segundo semestre?

Depende muito das medidas para ampliar o crédito bancário que o governo está adotando e de programas como os que trabalhamos com o governo, como o da renovação da frota de caminhões e ônibus e o fortalecimento do setor de peças, com o Inovar-Peças. As autopeças brasileiras chegaram a responder por 100% das peças de um carro feito no Brasil e hoje essa participação está na faixa de 46%. Não é normal isso, porque temos um setor estruturado. Algumas empresas perderam mercado por falta de competitividade. O governo precisa tomar medidas e a mais importante, em nossa opinião, é o Inovar-Peças, com o decreto da rastreabilidade do conteúdo local.

Como estão as discussões para a criação do sistema nacional de proteção ao emprego, baseado no modelo alemão?

Estamos discutindo com todas as centrais e com o Dieese. Amanhã temos reunião com representantes das centrais nos conselhos do FGTS e do FAT. Todos os sindicatos estão preocupados com a questão da indústria e veem no sistema de proteção uma boa alternativa para superação de momentos de crise. A ideia é fechar uma proposta nossa e na sequência pedir audiência com o ministro Guido Mantega (Fazenda).

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