Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

O acervo fotográfico da Bienal de SP, a 20 graus negativos

Técnica evita que filmes e slides se deteriorem pela ‘síndrome do vinagre’, que prejudica a qualidade das imagens

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2022 | 05h24

O documentário Tempo Congelado narra um achado histórico no final da década de 1970, em Dawson, no Canadá. Escavações na cidade localizaram um rico acervo, com centenas de partes de filmes mudos do começo do século 20, dados como perdidos. O material foi encontrado após ser desenterrado do solo congelado canadense, relativamente preservado.

E tem sido essa técnica, a do congelamento, que a Bienal de São Paulo está usando para preservar seu arquivo de 48 mil filmes fotográficos, entre negativos e slides. Cerca de 90% desse acervo está armazenado em dois freezers no Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

O Arquivo Histórico Wanda Svevo – nome da fundadora do arquivo, que foi secretária-geral da Bienal e morreu em 1962 – abriga registros históricos de montagens de exposições, além de fotografias de obras e artistas de todo o mundo.

Uma das pessoas responsáveis por preservar esse acervo é Olivia Okasima, assistente de arquivo da área de conservação da Bienal. “Os filmes de base plástica têm uma degradação intrínseca ao material, que se chama a ‘síndrome do vinagre’, o que leva a um processo de desplastificação”, explica.

A “síndrome” é um processo químico, deflagrado pela umidade e pelo calor, que degrada a película do filme, levando as bobinas a exalar um característico odor avinagrado. Sem o cuidado necessário, os danos podem impossibilitar o manuseio e a reprodução dos filmes, além de interferir na qualidade das imagens.

MODO DE GUARDAR

Os filmes são acondicionados em freezers comuns, mas o processo de congelamento exige uma técnica específica.

Antes de serem guardados na geladeira, os filmes fotográficos são armazenados em caixas de cartão alcalino micro-ondulado. Depois disso, cada caixa é embalada em dois sacos plásticos de nylonpoli, filme transparente que barra a umidade.

Fora isso, dentro de cada saco plástico são adicionados pacotinhos de sílica-gel e cartões secos para manter a umidade relativa das embalagens em níveis adequados. Depois de todo o artefato pronto, os filmes são armazenados em temperaturas na faixa entre -18º e -20º Celsius.

Além do congelamento dos filmes físicos, o acervo fotográfico também está sendo digitalizado. Hoje, segundo Olivia Okasima, cerca de 60% do arquivo já está disponível online.

“Queremos colocar tudo isso à disposição de pesquisadores”, afirma o presidente da Bienal, José Olympio Pereira.

À frente da Bienal desde 2019 e nome conhecido do mercado financeiro, José Olympio afirma que o congelamento de filmes pode ser de grande valia para as cinematecas pelo País, pois também é aplicável às películas cinematográficas.

Ele lembra que o produto tem materiais altamente inflamáveis, o que levou ao incêndio que destruiu a Cinemateca de São Paulo, em 2021. “Tomara que essa técnica se difunda”, diz o executivo, ex-presidente do banco Credit Suisse no País.

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