O agro às escuras

Às vésperas do afastamento da presidente Dilma, o governo federal anunciou a suspensão sine die do Censo Agropecuário. Inicialmente previsto para 2016, já fora postergado para 2017 e agora foi cancelado e transferido para 2020. A decisão revela o descalabro que tomou conta da administração federal, incapaz de planejar e executar até mesmo uma ação regular, prevista com anos de antecedência e a cargo de uma instituição, o IBGE, com notória competência técnica e credibilidade política. Revela ainda a falta de compromisso com a transparência na geração de informações fidedignas para uso do governo e da sociedade e, por fim, o desleixo com o planejamento das ações públicas.

Antônio Márcio Buainain, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2016 | 05h00

O Censo Agro vem sendo realizado no País desde 1920. Operação complexa e custosa, mas absolutamente necessária para desvendar a realidade agropecuária brasileira. Insubstituível, pois nenhum outro estudo hoje gera informações sobre a estrutura produtiva e a situação dos estabelecimentos rurais – lotes, sítios, chácaras, fazendas e empresas. Somente o Censo Agropecuário apresenta o retrato completo da agropecuária brasileira, trazendo informações indispensáveis para alimentar a reflexão sobre as transformações estruturais e situação real do setor e embasar as ações do Estado, em todos os níveis, e o desenho, execução e avaliação de políticas públicas.

Nos últimos 25 anos a agricultura e o mundo rural brasileiros sofreram profundíssimas transformações, parcialmente analisadas no livro O Mundo Rural no Brasil do Século XXI (clique aqui). Com base principalmente nas informações dos censos agro, os autores revelam como a inovação tecnológica e organizacional, a elevação da produtividade total dos fatores produtivos, o aumento da escala de produção e a inserção nas principais cadeias globais de valor permitiram aos produtores rurais e ao agronegócio brasileiro aproveitarem o boom das commodities e transformar o País em um dos principais produtores de alimentos e matérias-primas agropecuárias do mundo. Tudo isso apesar das deficiências sistêmicas que têm comprometido a competitividade da economia brasileira e dos erros e omissões – graves – das políticas econômica e agrícola, que continuam punindo o setor como um todo e concedendo benefícios a poucos que têm acesso aos programas de apoio à agricultura familiar e às políticas agrícolas gerais.

Revelam também aspectos negativos, chamam a atenção para a heterogeneidade estrutural do agro brasileiro e para a natureza excludente do dinamismo das últimas décadas. Nada é mais revelador das contradições e fragilidades do meio rural e da agricultura brasileira do que a constatação de Eliseu Alves, fundador e ex-presidente da Embrapa, de que apenas 11% dos estabelecimentos rurais são responsáveis por 87% do valor bruto da produção. Qual a viabilidade econômica, social e ambiental de milhões de estabelecimentos excluídos do processo de modernização e inclusão econômica? Como reduzir a desigualdade e ampliar os benefícios do dinamismo? As respostas dependem de informações atualizadas e tecnicamente corretas, que hoje não estão disponíveis.

A verdade é que a situação do agro hoje é uma incógnita. Vivemos, de novo, sob o mando do “achismo”, que é o campo apropriado para o domínio de interpretações ideológicas, determinadas pelo legítimo desejo e crença de cada grupo, mas completamente desvinculadas da realidade. O conjunto de políticas e programas – alguns novos e relevantes, como o da Agricultura de Baixo Carbono – vem sendo formulado com base em uma fotografia velha, que não corresponde à realidade. Enquanto isso, a realidade segue seu curso, positivo ou negativo, independentemente e apesar das políticas públicas.

As primeiras declarações do presidente indicado, Paulo Rabello de Castro, resumem a perplexidade diante da decisão tomada em nome da austeridade: “Se o Brasil não tiver capacidade de realizar um Censo Agropecuário, é desnecessário fazer qualquer outro comentário”.

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