Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

‘O ajuste no Brasil será mais difícil que o na Argentina’, diz Paulo Leme

Apesar de ser mais estável que o vizinho, Brasil terá de cortar despesas, o que torna o processo mais ‘doloroso’

Luciana Dyniewicz, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2019 | 05h00

A situação fiscal brasileira é mais delicada que a argentina e o trabalho de ajuste mais difícil de ser conduzido, avalia Paulo Leme, professor da Universidade de Miami e membro do Comitê Latino-americano de Assuntos Financeiros (Claaf). Apesar de afirmar que os países são muito diferentes do ponto de vista de fundamentos econômicos, Leme diz que o Brasil não pode repetir o erro dos vizinhos de abusar de um ajuste gradualista.

Economistas apontam o ajuste fiscal gradual do governo Mauricio Macri como responsável pela crise, mas havia pressão política contra um choque. Macri tinha como evitar o gradualismo? 

O grau do gradualismo poderia ter sido menor. Não havia espaço político para tratamento de choque, mas a abundância de financiamento externo e a boa vontade do setor privado no início do governo deram a ilusão de que havia tempo para se fazer as coisas difíceis. Agora, uma coisa é o ajuste fiscal e outra é o erro de condução da política monetária. A taxa de juros mais baixa do que o necessário para manter a inflação sob controle e o uso exagerado das reservas para manter o câmbio colocaram a Argentina em posição vulnerável.

O governo mudou parte de sua equipe econômica e trocou o presidente do Banco Central. Conseguiu retomar confiança?

Sim. Se não fosse pelo período eleitoral (as eleições presidenciais são em outubro), haveria credibilidade plena no aperto fiscal. Se não tivesse eleição, a aposta política seria endurecer o ajuste no primeiro semestre e colher resultados de crescimento em 2020. Só que essa escolha política que vai ser feita deixa Macri na necessidade de aprofundar o ajuste, porém com os riscos do mercado começar a precificar a vitória da oposição.

Em documento elaborado em dezembro, o Claaf afirma que Brasil e Argentina podem se beneficiar de uma modernização do Mercosul. Quais modernizações a entidade defende? 

Os objetivos do Mercosul são ultrapassados. Tem de ter convergência macroeconômica, expansão do número de membros e acordos entre grandes blocos regionais. Não dá para se fechar dentro do Mercosul com economias heterogêneas. 

O documento fala que os dois países são diferentes para serem comparados de modo simplista. Quais as principais diferenças?

O Brasil tem estabilidade de preços e o Banco Central como um polo de estabilidade macroeconômica. A Argentina não. O Brasil não tem problema externo. Já a Argentina tem poucas reservas e déficit de conta corrente elevadíssimo. Mas ambos tem um problema fiscal sério, que no caso do Brasil é muito pior. O ajuste fiscal que a Argentina se propôs a fazer é de 2,6% do PIB. O que o Brasil precisa fazer em quatro anos é de no mínimo 5% do PIB. A metade do ajuste que a Argentina precisa fazer é via imposto de exportação. Então, parte dele é paga pelo consumidor de fora. Não é o caso do Brasil, que tem uma sobrecarga tributária tremenda e onde a saída é pelo corte de despesas, que é mais doloroso.

O que o Brasil pode aprender com a crise argentina, apesar dessas diferenças? 

A primeira lição é: não corra risco, não peque sendo extremamente gradual. Além disso, as condições externas vêm se agravando. A situação de liquidez vai ser muito mais rarefeita para mercados emergentes, mesmo que o país tenha um bom balanço de pagamentos. Então não se deve abusar do gradualismo. Isso não quer dizer que tenha de ser draconiano. O segredo será fazer um ajuste duro e reconquistar a credibilidade do mercado para poder contar com uma forte entrada de capitais, especialmente de investimento direto para infraestrutura. Ao mesmo tempo, fazer reformas estruturais. Por exemplo, uma abertura para importação de bens de capital, aumentando a produtividade. É importante que investimentos e exportações compensem em parte o aspecto recessivo do ajuste de gastos do governo. Pode até se fazer um ajuste em vários anos, desde que se tenha grandes resultados e aprovações já no primeiro semestre, como a reforma da Previdência, que consolida a credibilidade.

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