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O alívio do Fed

O banco central dos Estados Unidos aumentou os juros, mas deixou claro que não há que se temer uma política mais agressiva de alta

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2017 | 21h00

No século 13, a ameaça da invasão dos mongóis liderados por Gengis Khan manteve toda a Europa eriçada, à espera do inevitável, que ninguém sabia como seria, um não saber que parecia piorar tudo. Mas eis que, de repente, para alívio geral, os mongóis se retiraram para sua terra de origem, a ameaça sobre os Bálcãs se desvaneceu e não se falou mais em invasão.

Já há pelo menos três anos, o mercado financeiro se eriça diante da expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) intensifique a retirada de circulação da moeda mais importante do mundo e, com isso, puxe os juros em dólares para o alto. Às vésperas de cada reunião do Fed para revisão dos juros, a tensão se redobra para além do justificável. Foi assim também desta vez.

O processo de alta dos juros nos Estados Unidos começou ao final de 2015, mas com cuidado redobrado e a suavidade possível, para não produzir solavancos. Desde dezembro, oscilam entre 0,50% e 0,75% ao ano.

Nesta quarta-feira, o Fed decidiu-se por elevar novamente os juros em 0,25 ponto porcentual. Mais importante, na entrevista que concedeu após o anúncio oficial, a presidente Janet Yellen tranquilizou a todos, garantiu que não há razões para temer por uma política mais agressiva de alta dos juros, embora a economia dos Estados Unidos esteja se reaquecendo e o desemprego tenha recuado para 4,7%. Não está no ar, disse ela, nenhuma mudança no ritmo dos juros. O aperto monetário será sem espasmos, mas gradual. Enfim, não se justificam as tensões da invasão pelas hordas da Mongólia.

A confirmação de que o processo de enxugamento de liquidez dos mercados continuaria lento e praticamente indolor espalhou ondas de alívio e o que havia de estresse no ar se dissipou, como se viu pela reação dos mercados: baixa da remuneração dos títulos, queda do dólar e alta das ações e das commodities (veja o Confira).

Nas últimas semanas, a expectativa de uma ação mais agressiva do Fed não proveio de eventual aumento da inflação que, ao contrário, está fortemente ancorada na meta de 2,0% ao ano, mas dos insistentes recados passados pelo presidente Trump de que injetará grandes volumes de recursos fiscais em obras de infraestrutura e em redução de impostos, com objetivo de estimular a produção, dentro de sua prioridade política de projetar os Estados Unidos de volta ao primeiro lugar, como insiste com slogan de governo ("America first").

Se esse despejo de recursos se confirmasse, aumentaria o risco de inflação e o Fed se viria na obrigação de intensificar a retirada de moeda (alta dos juros). Uma das consequências imediatas desse passo seria a valorização do dólar diante das outras moedas e alguma redução das cotações das commodities, na medida em que um dólar mais valorizado compraria mais mercadorias.

A valorização do dólar e, portanto, o aumento da procura por moeda de reserva tenderiam a enfraquecer o real e a produzir mais inflação no mercado brasileiro, a partir do aumento dos preços em reais dos produtos importados.

Por aí se vê que se esvaiu também o receio de que o Banco Central do Brasil se visse obrigado a conter sua política monetária de corte mais intenso dos juros básicos (Selic), hoje nos 12,25% ao ano. Os mongóis não ameaçam mais.

CONFIRA:

A cotação do dólar no Brasil respondeu à ênfase gradualista exposta pelo Fed (o banco central dos Estados Unidos) com uma baixa forte de 2,22%. E a Bolsa, ao contrário, com uma alta robusta de 2,37%.

Muito além do umbigo

Às vezes, o brasileiro não tira o olho do seu umbigo e deixa de dar importância ao que acontece na economia global. Lá pelas tantas se dá conta de que o grande mercado se movimenta com mais força pelo que acontece (ou não acontece) lá fora do que pelo que se passa aqui dentro.

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