O ano das que não foram

A maior parte das empresas que planejava abrir o capital na Bolsa desistiu e teve de buscar alternativas para se financiar

MARINA GAZZONI, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 04h34

A maioria das empresas que pretendia captar dinheiro na Bolsa em 2012 encerrou o ano com o bolso vazio -ou menos cheio do que esperava. O ano foi de vacas magras para as ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês), que movimentaram apenas R$ 3,9 bilhões em 2012, o menor patamar desde 2004, quando o mercado de capitais brasileiro começou a deslanchar. O cenário de incertezas fez oito companhias que planejavam abrir o capital cancelarem suas ofertas ao longo do ano.

O grupo inclui nomes conhecidos do mercado, como a agência de viagens CVC, a rede de farmácia Pague Menos e a CPFL Renováveis, além de novatas como a mineradora Manabi e a rede de agências de viagens Brasil Travel. Também estão na lista a Isolux Infrastructure, de concessões de energia e rodovias, a prestadora de serviços para o setor de petróleo Seabras e a Biosev, resultado da fusão de LDC Bioenergia com a Santelisa Vale.

A maré ruim é reflexo, em parte, das incertezas geradas pela crise na Europa, que trazem volatilidade à bolsa brasileira. Mas questões econômicas do País pesaram mais. O Brasil vem crescendo menos e deve fechar o ano com uma alta de cerca de 1% do PIB (Produto Interno Bruto).

"O baixo volume de IPOs reflete a diminuição do apetite de investidores estrangeiros pelo Brasil. O País perdeu em atratividade para outros mercados, como o México", disse o diretor da área de ofertas de ações do Credit Suisse, Marcelo Millen. Segundo a BM&FBovespa, os investidores estrangeiros respondem por cerca de 70% dos recursos aplicados nas ofertas iniciais.

Outras questões, como a ingerência do governo na economia e uma desconfiança gerada após promessas não cumpridas de companhias que fizeram o IPO anteriormente, levaram os investidores a ficar ainda mais cautelosos. "Casos como o das empresas de Eike Batista, que prometeram um resultado e apresentaram outro, deixaram os investidores menos tolerantes a companhias pré-operacionais. E os investidores ficaram ainda mais desconfiados após o IPO da Unicasa, que divulgou seu primeiro balanço bem abaixo do esperado", disse uma fonte de mercado, que não quis se identificar.

Além da Unicasa, dona das marcas Dell Anno e Favorita, entraram na BM&FBovespa neste ano o banco de investimento BTG Pactual e a Locamerica, de gestão de frotas. Entre as estreantes, apenas a Locamerica chega ao fim do ano com papel cotado acima do preço do IPO.

Reforço. A frustração dos planos de abrir o capital obrigou algumas empresas a buscar alternativas de capitalização. Quase todas tinham planos de usar o dinheiro para crescer, segundo os prospectos das ofertas submetidos à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) (veja abaixo).

Manabi e Isolux Infrastructure admitiram um novo sócio -um fundo de pensão e um private equity, respectivamente - e fizeram rodadas de aumento de capital para reforçar o caixa da empresa e financiar as operações. A CPFL Renováveis afirmou em comunicado que tem recursos suficientes para garantir a execução de seus projetos. "Para o futuro, precisaríamos de capital novo. Por isso tentamos o IPO", disse o presidente da empresa, Miguel Saad, em entrevista ao Estado em novembro. A companhia pode tentar nova oferta quando o mercado estiver mais favorável.

A Pague Menos emitiu R$ 260 milhões em debêntures para garantir seu crescimento em 2012 e 2013. A empresa, terceira no varejo farmacêutico, abriu 91 lojas e chega ao fim do ano com 580 unidades. "Emitimos debêntures por precaução. Mas não estou com o pé na forca para fazer o IPO a qualquer preço. Só faço por um valor que me interesse", disse o fundador da empresa, Deusmar de Queirós.

Quem precisou de recursos obteve uma oferta farta no mercado de dívidas e com fundos de private equity, disse o diretor executivo da área de private banking do Itaú BBA, Fernando Iunes. "As empresas encontraram no mercado alternativas rápidas para se financiar."

Entre as que desistiram de entrar na bolsa, a CVC foi a que ficou em situação mais confortável. Ela pretendia usar os recursos do IPO para pagar os sócios e não para reforçar a operação. Assim, o cancelamento da oferta não reflete no caixa da empresa.

Retomada. Se as perspectivas do mercado financeiro se concretizarem, as ofertas de ações devem voltar em 2013. "As empresas que precisam de recursos para crescer vão procurar a bolsa", disse o diretor de mercado de capitais da PricewaterhouseCoopers, Diego Fresco Gutierrez.

A aposta da BM&FBovespa é que as pequenas empresas encontrem mais espaço na bolsa nos próximos anos. "As pequenas atraem investidores nacionais. A dependência dos estrangeiros é menor nesses negócios", disse a diretora de desenvolvimento de empresas da BM&FBovespa, Cristiana Pereira.

Com os juros altos no Brasil nos últimos anos, os investidores brasileiros ainda priorizavam a renda fixa. Agora que as taxas caíram, tudo que a BM&FBovespa quer é que eles passem a investir em ações. E evitem que um ano como 2012 se repita./ COLABOROU RENÉE PEREIRA

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