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O anti-Trump

Seja como for, a administração do planeta ingressa agora num momento de incertezas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2017 | 21h00

Quem diria, o campeão do movimento de globalização é um comunista.

Nesta terça-feira, no Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, Suíça, o presidente da China, o comunista Xi Jinping (foto), defendeu a globalização como fator de prosperidade para as nações. Nisso se contrapôs frontalmente às posições assumidas por Donald Trump.

Trump não quer a integração econômica entre países; quer a defesa intransigente dos interesses imediatos dos Estados Unidos. Até agora, a ideia da “América em primeiro lugar” coincidia, em princípio, com a do atendimento dos interesses também dos vizinhos e do resto do mundo. Trump propõe um nacionalismo mais rígido e também mais cego.

Mas, ninguém se engane, Xi não é a favor da globalização em todas as suas dimensões. Ele fez questão explícita de defender a “globalização econômica”, o livre fluxo dos capitais e do comércio e a adoção de providências destinadas a reverter o aquecimento global. “Buscar o protecionismo é como trancar-se numa sala escura”, disse ele. Mas pareceu excluir dos objetivos globalizantes tanto a internet, que seu governo vem restringindo cada vez mais, como o respeito intransigente aos direitos humanos.

Seja como for, a administração do planeta ingressa agora num momento de incertezas e provavelmente de ruptura de iniciativas importantes. Fiquemos com apenas uma delas, menos focada pelos analistas.

Nos últimos 40 anos, os dirigentes do mundo sentiram a necessidade de criar mecanismos destinados a coordenar a administração da economia. Para isso foi criado em 1975 o Grupo dos Sete (G-7). Em 2008, o Grupo dos Vinte (G-20), que funcionava como instância de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais, passou a operar como foro de chefes de Estado. Mais recentemente, o G-20 foi a instância em que os senhores do mundo passaram a coordenar ações destinadas a contra-atacar o terrorismo pelas suas fontes de financiamento, mecanismos de lavagem de dinheiro e fluxos de recursos por meio dos bancos. A repatriação dos recursos depositados lá fora é consequência disso. Boa questão consiste em saber o que será do G-7 e do G-20 com integrantes com concepções tão díspares sobre as bases em que devem funcionar a política econômica e o capitalismo mundiais.

Agora, uma observação à parte. Paradoxalmente, as esquerdas brasileiras estão com Trump e não com Xi. Há anos, elas também são contra a globalização e contra o que chamam de Consenso de Washington. O argumento é o de que a globalização não faz outra coisa senão o jogo do imperialismo americano e das suas multinacionais. No entanto, para Trump, a globalização trabalha contra os interesses dos Estados Unidos, na medida em que lhes rouba exportações e empregos.

O ponto de vista das esquerdas tupiniquins está também bem mais próximo de Marine Le Pen, a líder nacionalista de direita da França, e dos defensores do Brexit, a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, também contrários à globalização, do que da primeira ministra da Alemanha, Angela Merkel, a líder europeia da cooperação econômica entre as nações.

Millôr Fernandes observou uma vez que, “quando uma ideologia fica bem velhinha, vem morar no Brasil.” O novo enrosco ideológico das esquerdas brasileiras mostra que Millôr tinha razão.

CONFIRA:

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, reforçou em entrevista à imprensa em Davos, Suíça, que o corte dos juros de 0,75 ponto porcentual ao ano é o novo ritmo da política monetária. E foi isso a que a imprensa deu ênfase. Mas Ilan não disse só isso. Disse também que “um novo ritmo pode mudar”.

Vai depender do comportamento da inflação e de que as expectativas dos “fazedores” de preços se mantenham ancoradas no objetivo de atingir a meta de inflação de 4,5% ainda este ano. Parece inevitável que o Banco Central crave pelo menos dois cortes de 0,75 ponto. Depois vai ver como fica a inflação e o resto. E o ritmo seguirá a música que a orquestra estiver tocando.

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