O apodrecimento da indústria revela as fragilidades da economia brasileira

O apodrecimento da indústria revela as fragilidades da economia brasileira

O Brasil é muito pesado e não pode ser carregado nas costas da agropecuária e da mineração. Não há como crescer de forma acelerada se não tivermos uma indústria pujante

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 04h00

A composição das exportações brasileiras ao longo do tempo ilustra bem a saga da nossa estagnação. Entre o ano 2000 e 2020, as vendas externas brasileiras cresceram 265%, mais do que a média mundial, que ficou em 181,5%.

Mesmo com esse aumento, as exportações representam parcela relativamente pequena do Produto Interno Bruto (PIB). No ranking do Banco Mundial, o Brasil apresenta uma participação das exportações sobre o PIB de apenas 14,1%, o que nos coloca entre a Nigéria e Comores, um pequeno país insular no Oceano Índico. Até aí, pouca novidade. Somos introspectivos. As exportações não importam muito.

A estrutura da pauta, contudo, revela alterações estruturais de vulto. Em 1997, a participação da indústria de transformação no total exportado era de 81%, com apenas 11% para a agropecuária e 6% para a indústria extrativa.

Nos 12 meses terminados em janeiro de 2022, a participação da indústria de transformação tinha caído para 52% do total, com 20,3% para a agropecuária e significativos 27% para a indústria extrativa.

Isso significa que, na ausência de uma política econômica que estimule o crescimento de setores de maior valor agregado, estamos nos especializando em produtos mais simples, com baixa capacidade de gerar efeitos de encadeamento que deflagrem um processo de crescimento autoestimulante com efeitos cumulativos.

Tomando como referência a variação anualizada do PIB trimestral entre 2000 e 2021, a correlação entre a variação do PIB total e o PIB da agropecuária é de apenas 0,29, o mesmo número, coincidentemente, para a correlação com a indústria extrativa. Já a correlação com a indústria de transformação alcança 0,85. O Brasil é muito pesado e não pode ser carregado nas costas da agropecuária e da mineração. Não há como crescer de forma acelerada se não tivermos uma indústria pujante.

Se os governos anteriores primaram pela escolha de uma política industrial que cevava apaniguados, o atual cultua a ideia de que a melhor política é não ter política. O resultado está aí. Uma indústria em frangalhos, sucateada, arruinada. A produção do ano passado foi menor que a de 2004. A queda nos últimos dez anos foi de 16%.

Resta torcer para que o próximo governo seja capaz de, refutando sinecuras e privilégios, levar adiante medidas que estimulem sua recuperação. O Brasil não irá para a frente enquanto a indústria for para trás. 

*Economista, foi diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de Economia da PUC-SP e da FGV-SP

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