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O Apple Car vem aí

Quando o Vale do Silício começar a fazer automóveis, as mudanças serão radicais

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2016 | 05h00

No início da semana, um grupo de analistas do banco Morgan Stanley que passara dias debruçado sobre as planilhas da Apple publicou um achado e tanto. Entre 2012 e 2015, a verba da empresa para desenvolvimento de novas tecnologias triplicou. Saltou de US$ 3,6 bilhões para quase US$ 9 bilhões. E, ainda assim, nada de extraordinário saiu de seus laboratórios neste período. Nem cheiro. No máximo o Apple Watch, um produto de nicho vagamente interessante. Este padrão de gastos em novos produtos não é nada comum no Vale do Silício. É comum, porém, noutra indústria. Em 2015, a Ford investiu US$ 7 bilhões. A Toyota, US$ 9 bilhões.

A Apple está mesmo desenvolvendo um automóvel.

O boato já vem de algum tempo e com boas razões. No ano passado, a Apple contratou Doug Betts, um executivo que passou 25 anos entre Nissan, Toyota e Fiat Chrysler. O que faz na Apple? Exerce uma função operacional não especificada, segundo seu perfil no LinkedIn. No mesmo ano, contratou o engenheiro suíço Paul Furgale, cujo último trabalho havia sido desenvolver carros autômatos. Pelo menos 50 engenheiros que trabalham hoje na Apple vieram da Tesla, a inovadora empresa do Vale que constrói carros elétricos. Elon Musk, CEO da Tesla, já se queixou publicamente da agressividade dos pacotes de bônus oferecidos a seus empregados. Outra empresa atacada é a sul-coreana Samsung. Lá, a Apple busca gente especializada em baterias. Não bastasse, a empresa comprou um largo porcentual da Didi Chuxing, equivalente chinesa do Uber.

As peças todas juntas indicavam, claramente, que havia interesse no mercado automobilístico, mas não necessariamente num veículo. O alto gasto aponta para o Apple Car.

Não será, evidentemente, a primeira empresa do Vale com este tipo de interesse. Afinal, a própria Tesla já está na terceira geração de automóveis. E o Google tem pronta a tecnologia de seu carro autômato. No início de maio, assinou um acordo com a Fiat Chrysler para o lançamento futuro de uma minivan que dirige por conta própria. A concorrência vai aumentar.

Quando o Vale começar a fazer automóveis, as mudanças serão radicais. Porque os dois novos conceitos trazidos pelo digital representam uma drástica mudança de comportamento. Trata-se do modelo Uber, de chamar um carro pelo celular, e dos robôs.

Poderemos chamar o carro, pelo celular, a hora que precisarmos dele. E, se pudermos fazer isso, qual o sentido de comprar um automóvel? A principal aposta dos analistas é que deixaremos de ter nossos próprios veículos para simplesmente contratar o serviço de uma empresa. O Uber do futuro talvez tenha um modelo parecido com o do telefone celular. Paga-se uma quantia por mês por um pacote de quilômetros. Quem passar daquele número, paga mais.

Há inúmeras vantagens neste modelo. O número de acidentes diminui, carros autômatos são muito mais seguros. Carro é coisa muito cara e cujo valor deprecia rápido. Esta perda desaparece. O problema de onde estacionar some. Num cenário com só carros robôs na rua, a velocidade tende à constância e os engarrafamentos resolvem. Além do quê, é perfeitamente possível usar um carro pequenino para o trabalho e pedir um com bagageiro grande para o fim de semana.

Mesmo em Detroit, onde está a indústria tradicional, não são poucas as mentes pensando no modelo do futuro. É mais um negócio que o digital botará de pernas para o ar.

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