O aquecimento do planeta e a escassez de energia
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O aquecimento do planeta e a escassez de energia

Escassez que contribui para a disparada dos preços do gás natural na Europa revela graves problemas no processo de transição energética

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2021 | 20h19

O aquecimento do planeta pode parecer o problema de fundo, mas quase todas as discussões sobre o clima se concentram sobre o principal: escassez de energia limpa.

Até quando se fala em mercado de crédito de carbono, a questão ainda é produção de energia. Desmatamento é coisa séria, mas não é o tema mais importante quando se produzem conferências e mais conferências sobre a grave crise do clima.

A disparada dos preços do petróleo e do gás natural está sendo atribuída a problemas aleatórios ou localizados, um de cada vez. Foram ventos fracos que reduziram a produção de energia eólica e obrigaram ao aumento da utilização de energia térmica a gás. Foi a disparada do calor no último verão do Hemisfério Norte que aumentou o consumo de energia elétrica para refrigeração dos ambientes. Foi o desestímulo dado à produção de gás de xisto pela nova política ambiental do presidente Joe Biden que paralisou os investimentos no setor. Foi a suspensão da produção causada no Golfo do México pelo furacão Ida. Foi a retomada da atividade econômica depois da pandemia que passou a exigir mais energia. Foi a crise hídrica, como a que atingiu em cheio o Brasil, que exigiu mais geração de energia de fontes térmicas. Enfim, no mundo os preços da energia estão disparando, turbinando a inflação e colocando em risco o crescimento econômico global.

 

Embora com aparência fortuita, essa escassez deve ser vista como estrutural. Ainda nesta quarta-feira, o secretário-geral da Opep+, Mohammad Barkindo, advertiu que a transição energética está desorganizando a oferta de gás natural. Tudo se passa como se todo o sistema global de produção de energia estivesse vulnerável. 

Um dos mais importantes debates, que coincide com os da Cúpula do Clima da ONU (COP 26), a ser realizada em novembro na Escócia, gira em torno de saber se a substituição dos combustíveis fósseis por energia limpa não está sendo rápida demais; ou, em outras palavras, se a geração global de energia sustentável, embora já atrasada, não está dando conta do aumento da demanda. Não é o tipo do problema que muitos ecologistas gostariam de discutir, porque para eles não há urgência maior do que deter o aquecimento do planeta.

Por toda a parte, os governos estão impondo metas cada vez mais rígidas para descarbonização ou encurtando os prazos para substituição dos veículos a combustíveis fósseis por veículos elétricos. Mas tais metas não vêm sendo cumpridas. E o ritmo da produção de energia elétrica, que move os motores dos carros elétricos, está lento demais em relação ao pretendido.

Os investimentos em energia eólica e energia solar dos quais depende o combustível do futuro, o hidrogênio verde – cuja produção, por sua vez, exige alto consumo de energia elétrica –, são muito altos e até agora apenas incipientes.

Uma das sugestões recorrentes dos ambientalistas é a de que não é mais possível crescer ao ritmo das últimas décadas e que, portanto, seria preciso mudar o paradigma, reduzir substancialmente o consumo e viver menos perdulariamente. Uma forte redução do ritmo de crescimento econômico seria perfeitamente possível, mas cobrará certos preços: aumentaria o desemprego; retardaria o desenvolvimento dos países mais pobres; e aumentaria o risco de crises políticas, como a dos movimentos autoritários.

Bastou que espocasse a crise da megaconstrutora Evergrande, que detém um passivo de US$ 300 bilhões apenas em operações financeiras – estão fora dessa conta as dívidas a fornecedores –, para que imediatamente os mercados e as autoridades ao redor do mundo temessem pela desaceleração do crescimento global.

Foi graças ao avanço vertiginoso da atividade econômica na China e nos chamados tigres asiáticos que cerca de 1 bilhão de pessoas foram resgatadas da pobreza absoluta. Mas também foi esse crescimento que exigiu mais energia e obrigou o governo da China a recorrer às suas reservas de carvão mineral e a ser o país recordista em emissões de gás carbônico na atmosfera.

Enfim, a menos que grande esforço de investimentos aconteça a tempo, a transição para fontes sustentáveis de energia pode estar prejudicada. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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