Imagem José Roberto Mendonça de Barros
Colunista
José Roberto Mendonça de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O aquecimento global entrou na alta finança

Os maiores líderes mundiais de negócios estão dizendo que a coisa é importante e urgente

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 05h00

A recente reunião do Fórum Econômico Mundial foi bem diferente em sua agenda. O aquecimento global entrou na alta finança.

Klaus Schwab, fundador do evento, distribuiu uma carta aos participantes, escrita em coautoria com os presidentes do Bank of America e da Royal DSM, na qual diz que o atual modelo econômico não é mais sustentável e que terá de mudar para incorporar, entre outras coisas, tolerância zero com a corrupção, proteção ao meio ambiente, uso ético de informações privadas e respeito aos direitos humanos em toda a cadeia de fornecedores.

Em suporte a essa visão, Larry Fink, presidente da Black Rock, gestora global de recursos, em sua influente carta anual, disse que sua empresa evitará investimentos em companhias que apresentem grandes riscos associados a sustentabilidade.

Mas, talvez o fato mais significativo foi o lançamento do livro editado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), o banco central dos bancos centrais, com o sugestivo nome de Cisne Verde (The green swan – Central Banking and Financial Stability in the Age of Climate Change, BIS, 2020). O trabalho está centrado na ideia de que a mudança climática é uma ameaça para a estabilidade das finanças globais. 

Daqui em diante, não se poderá dizer que meio ambiente é apenas objeto de manifestações da esquerda, de “onguistas” ou de europeus. Ao contrário, os maiores líderes mundiais de negócios estão dizendo que a coisa é importante e urgente.

Além do destaque que tem se dado ao fogo na Amazônia, outra fonte de alarme está na Austrália, local de onde vêm os maiores sinais dos efeitos do aquecimento do planeta e suas consequências.

Num dos relatórios mais antigos do Painel Intergovernamental para a Mudança Climática (IPCC) da ONU sobre o clima existe uma observação que nunca esqueci, depois que a li: “A Austrália será um indicador antecedente do aquecimento global”, e o que temos visto recentemente parece validar essa menção e coloca em xeque uma história de crescimento extraordinariamente bem-sucedida.

De fato, parece claro que a temperatura média está se elevando, os extremos do clima são cada vez maiores, o país sofre com uma seca recorrente (mais de 5 anos) e uma aguda escassez de água em muitas regiões, culminando nesta temporada de incêndios, muito maior do que a usual. 

Nessas condições, começam a surgir dúvidas sobre o próprio desenvolvimento do país. A Austrália tem o melhor desempenho de crescimento entre os países avançados, sem uma única recessão nos últimos 30 anos.

Entretanto, a enorme dependência do carvão vai se transformando numa vulnerabilidade, num mundo que leva cada vez mais a sério o problema do clima. Não apenas uma boa parte da energia elétrica consumida no país vem dessa fonte, como as exportações são concentradas em commodities minerais (ferro e gás natural, além do carvão), destinadas à China e a outros países asiáticos.

Também sua agropecuária vem encolhendo, especialmente, por causa da redução da oferta de água. Há pouco tempo, o Congresso australiano discutiu se não deveriam ser proibidas as exportações de vegetais, como forma de economizar água.

Não bastasse isso, o governo eleito há pouco na Austrália é dos que não acreditam no aquecimento global. Foi surpreendido pela dimensão dos incêndios e não parece saber muito para onde ir. Mas, respostas terão de ser dadas.

O Brasil, embora atraente, está mal nessa foto e, se o governo tiver juízo, terá de rever sua postura em relação à Amazônia e aceitar, de vez, a informação de que o grosso das queimadas é ilegal e que isso não pode continuar.

É indispensável que o novo Conselho da Amazônia, presidido pelo vice-presidente Hamilton Mourão, e a Força Nacional Ambiental alterem de forma drástica o trato que se deu à região no ano passado.

* * * * *

Nosso PIB queimou a largada, revelando um menor dinamismo no final do ano passado e que se repetirá neste primeiro trimestre. O crescimento será melhor que o de 2019, mas sem dar margem a grande entusiasmo.

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.