'O assédio dos concorrentes não nos seduz'

'O assédio dos concorrentes não nos seduz'

A Cristália virou uma das empresas mais cobiçadas do setor porque é o laboratório nacional mais avançado em pesquisa. Mas seu dono, o médico Ogari Pacheco, resiste em vender o negócio que criou nos anos 70

Melina Costa, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

Se existe um ponto comum entre os laboratórios mais agressivos do setor farmacêutico brasileiro é o interesse pela paulista Cristália. Nos últimos cinco anos, a empresa foi procurada por alguns dos maiores grupos nacionais e estrangeiros com presença no País. O último avanço foi da Hypermarcas.

Segundo o Estado apurou, a empresa de João Alves de Queiroz Filho, o Júnior, propôs a compra do laboratório no início do ano, mas as conversas não foram para frente. "As finanças da Cristália são sólidas. Por isso, o assédio de quem quer que seja não nos seduz", diz Ogari Castro Pacheco, fundador e controlador da empresa. "Nem aceito os convites de jantar que recebo dos banqueiros de investimento." Procurada, a Hypermarcas não se manifestou.

Segundo executivos próximos ao Cristália, Pacheco avalia duas opções para o futuro de sua companhia. A primeira é abrir o capital. A segunda é uma fusão com outro laboratório. Nesse caso, o Aché é o mais cotado.

Com um faturamento de R$ 600 milhões no ano passado, o Cristália está longe do grupo dos maiores laboratórios do País. O que chama a atenção dos concorrentes, porém, é sua posição na pesquisa e desenvolvimento de novas drogas, uma área em que a indústria nacional engatinha. Em 2007, a empresa foi responsável por um feito histórico: lançou o primeiro medicamento cuja molécula foi totalmente sintetizada no Brasil. Trata-se do Helleva, rival do Viagra, da Pfizer, para disfunção erétil.

A versão brasileira deve vender R$ 20 milhões em 2010 ? contra mais de US$ 1 bilhão que a droga americana registrou no mundo. Mesmo assim, é um feito extraordinário diante de concorrentes nacionais que se limitam a produzir cópias de inovações estrangeiras.

O problema é que, para manter seu laboratório distante dos compradores, Pacheco terá de fazer mais do que apenas rejeitar as propostas de aquisição. Aos 71 anos, o empresário, que acumula a função de presidente, tem à sua frente a tarefa de garantir a perpetuidade da companhia. Com a ajuda de uma consultoria, a Cristália passa hoje por sua terceira tentativa de profissionalização na gestão. Nos próximos meses, dois vice-presidentes deverão ser contratados da concorrência. Eles disputarão o cargo de presidente durante um ano. Assim que o nome for definido, Pacheco passará a ocupar apenas a presidência do conselho (cargo que acumula hoje).

Todos os demais postos já são ocupados por executivos profissionais. Os parentes de ambas as famílias fundadoras ? os filhos de Pacheco e de seu sócio, João Stevanatto, que faleceu em 1997 ? já foram afastados da administração. "Um dia eu vou me afastar. Sei que é possível uma disputa pelo poder. Por isso, estou tomando a precaução de deixar a empresa estruturada", diz Pacheco. "Vai ser sofrido deixar o dia a dia da administração, mas tenho de fazer isso".

Inovação. Além de reorganizar a gestão, o Cristália precisa continuar crescendo para não desaparecer diante da consolidação do setor e o fortalecimento de seus rivais. Uma das frentes de investimento é o lançamento de novas drogas.

Em três anos, o laboratório deve colocar no mercado um medicamento para reduzir o acúmulo de gordura nas artérias. "Se os testes correrem bem, teremos um blockbuster (nome das drogas que faturam mais de US$ 1 bilhão) brasileiro", diz Pacheco.

Outro braço da estratégia de expansão está na área farmoquímica: o Cristália pretende aumentar a produção de insumos para a indústria farmacêutica. Hoje, os principais fornecedores de matéria-prima para os laboratórios brasileiros estão na Índia e na China. A Cristália espera atender, especialmente, os laboratórios estatais, como Farmanguinhos, por exemplo.

Com iniciativas como essa, a expectativa é que o laboratório cresça 15% nesse ano e 50% em 2011. É o que espera não só o empresário, mas também seus concorrentes.

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