Brendan Smialowski/AFP
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O autor de 'A Grande Gripe' faz um alerta aos Estados Unidos sobre a covid-19

Se EUA não controlarem o vírus, a devastação pode ser ainda pior - tanto para a população quanto para a economia americana, que é a única coisa com a qual Trump parece se preocupar

John M. Barry*, The New York Times

20 de agosto de 2020 | 14h00

“A humanidade não consegue suportar muita realidade.”

Foi o que disse o poeta T.S. Eliot. É uma explicação apropriada para o fracasso da Casa Branca em reagir adequadamente à pandemia que varreu os Estados Unidos e o resto do mundo.

Mesmo agora que a realidade continua se intrometendo, o presidente Trump segue, em grande medida, ignorando ou desautorizando seus conselheiros médicos e científicos. E o resultado é que a economia, a única coisa com a qual ele parece se preocupar, a única coisa que ele esperava que o levasse a um segundo mandato, está sendo devastada.

Como demonstram a história e os dados de hoje, a saúde e a economia não são antagônicas: são parceiras de dança, e é a saúde pública quem dá o ritmo. Quanto mais seguras as pessoas se sentem, mais elas se dedicam às atividades econômicas.

Um estudo recente sobre a pandemia de influenza de 1918-1919, realizado por um membro do conselho do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e por economistas do Fed e MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), comparou cidades que impuseram medidas de saúde pública rigorosas – entre elas o fechamento de escolas e igrejas, proibições a reuniões públicas, restrições aos horários comerciais e quarentenas – com cidades que estabeleceram menos restrições e se reabriram mais rapidamente. As cidades mais rigorosas não apenas tiveram menos mortes, mas experimentaram “um aumento relativo na atividade econômica a partir de 1919”.

A contenção do vírus permitiu que muitas economias europeias se recuperassem melhor do que a americana. Veja, por exemplo, o caso da Alemanha, que está com uma taxa de desemprego de 6,4%. A taxa dos Estados Unidos é de 10,2%. Em março e abril, de acordo com a empresa de reservas OpenTable, o movimento nos restaurantes alemães e nos americanos estavam parecidos, com queda de mais de 90% em relação ao mesmo período do ano anterior. Desde então, abriu-se uma grande diferença: dados de 16 de agosto (os mais recentes até a publicação deste artigo) mostram que os restaurantes alemães tiveram 9% mais movimento do que no ano passado, antes da pandemia, enquanto os restaurantes americanos caíram cerca de 50%.

Em um relatório na semana passada, a Liga Nacional das Cidades disse que quedas abruptas na receita de impostos estavam forçando as cidades a “cortar severamente os serviços em um momento em que as comunidades mais precisam deles, a demitir e dispensar funcionários que representam uma grande parcela da classe média americana e a recuar em projetos fundamentais, afetando ainda mais os empregos, os contratos e os investimentos na economia local”.

Em junho, o Banco Mundial estimou que o PIB deste ano cairá no mínimo 5,2% e provavelmente muito mais. O Gabinete de Orçamento do Congresso calcula que o PIB americano terá um desempenho ainda pior, com queda de 5,9% no ano, mesmo depois de levar em consideração o crescimento de mais de 20% projetado para o terceiro trimestre. Mas essa projeção pressupõe o controle do vírus, o que por enquanto não passa de uma hipótese.

De fato, um modelo do Morgan Stanley prevê que, de acordo com as políticas atuais, os Estados Unidos estarão no caminho certo para contabilizar 150 mil novos casos por dia ainda este ano. E esse número nem faz parte do pior cenário. Se tivermos contagens de casos como essa, a economia simplesmente não terá um crescimento significativo.

Por pior que o vírus tenha se comportado neste verão, ele se espalha melhor em baixas temperaturas e, quando as temperaturas caírem, mais pessoas estarão em áreas mal ventiladas, onde a transmissão também é mais provável. Se os Estados Unidos entrarem no outono com os novos casos diários na casa das dezenas de milhares, como está acontecendo agora, os números podem explodir e a previsão do Morgan Stanley pode se tornar realidade. Considerando nossos esforços de combate à pandemia até aqui, não temos muitos motivos para ficarmos otimistas.

Se esse cenário de fato acontecer, a economia não vai se recuperar. Foi o que disse recentemente Jerome Powell, presidente do Federal Reserve: “O caminho da economia no futuro está extraordinariamente incerto e dependerá, em grande parte, de nosso êxito em manter o vírus sob controle”, disse m uma entrevista coletiva no dia 29 de julho. E ele acrescentou: “Até que as pessoas tenham certeza de que podem voltar a se dedicar a uma ampla gama de atividades com segurança, a recuperação total é improvável”.

Mas a contenção do vírus e a confiança que a acompanharia ainda estão muito distantes. Entre os países desenvolvidos, os Estados Unidos ocupam o primeiro lugar nas categorias em que seria muito melhor ser o último: número de casos e número de mortes. O país também está bem atrás na recuperação econômica. No momento em que este artigo foi escrito, a União Europeia e a Grã-Bretanha tinham, juntas, uma população de cerca de 510 milhões de habitantes e 1.924.569 casos de covid-19, com cerca de 8 mil casos na última contagem diária. Os Estados Unidos, com uma população de 328 milhões de habitantes, acabaram de ultrapassar os 5,4 milhões de casos, com 42.303 na última contagem diária.

Para promover a retomada da economia precisamos exatamente das mesmas três medidas necessárias para o controle do vírus: primeiro, exigir maior compromisso com a higiene pessoal, o distanciamento social, o uso de máscaras e o evitar das multidões; segundo, finalmente – finalmente – montar uma cadeia de suprimentos e infraestrutura de pessoal para fazer a testagem e o rastreamento de contato necessários; e, terceiro, prescrever o remédio amargo das paralisações regionais.

O mesmo modelo do Morgan Stanley que prevê que os Estados Unidos podem vir a registrar 150 mil casos por dia também apresenta um cenário “otimista”, no qual a contagem de casos no país declina para os níveis europeus. Mas, para que isto acontecesse, os pesquisadores que criaram o modelo partiram do pressuposto de que haveria “restrições mais rígidas e intervenções mais amplas”, como lockdowns “semelhantes” aos impostos pela China e pelos principais países da União Europeia.

Sem uma liderança ativa e assertiva na Casa Branca, não conseguiremos chegar a esse ponto e – a realidade, mais uma vez – não há a menor indicação de que isto irá acontecer. Mas em 1918 a liderança veio das cidades e estados. Se governadores e prefeitos agirem de maneira assertiva, especialmente se agirem em conjunto, ainda poderemos fazer progressos significativos.

Em abril, previ que o verão não traria alívio e que não teríamos uma segunda onda de contágio, mas ondas contínuas, dependendo do nosso compromisso com as medidas de saúde pública. Infelizmente, muitos estados flexibilizaram as medidas cedo demais, ou fizeram pouco ou nada para controlar o vírus. No dia da publicação dessa previsão, 30 de abril, a média de novos casos nos sete dias anteriores era de 28.943. Em 16 de agosto, a média de sete dias era de 51.523.

Também alertei que poderiam vir não apenas ondas, mas uma verdadeira tempestade viral, como um furacão, se o país não reagisse com seriedade e se a população não cumprisse as medidas. Mantenho essa previsão. Dezenas de milhares morrerão além dos mais de 170 mil que já morreram nos Estados Unidos. Milhões irão sofrer com a devastação econômica.

E, na realidade, tudo terá sido evitável. Que Deus nos ajude.

* John M. Barry é professor da Escola de Saúde Pública e Medicina Tropical da Universidade de Tulane e autor de A Grande Gripe. A história da Gripe Espanhola, a pandemia mais mortal de todos os tempos. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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