Victor J. Blue/The New York Times
Victor J. Blue/The New York Times

'Aquecer a economia, gerando um pouco mais de inflação, não faria mal nenhum'

Para Paul Krugman, é preciso lembrar da lição do estímulo de 2009 nos EUA: os riscos de fazer pouco são muito maiores do que os riscos de fazer muito

Paul Krugman, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2021 | 11h00

O presidente Joe Biden está propondo um grande pacote de auxílio para lidar com as prolongadas consequências do coronavírus. O pacote é amplo, como deveria ser. Mas, como era de se prever, está enfrentando demandas para que seja reduzido. Será que alguma dessas exigências tem qualquer validade?

Podemos desconsiderar a oposição de líderes republicanos que de repente decidiram, depois de anos aprovando déficits sob Trump, que a dívida federal é uma coisa terrível. Já vimos esse filme antes, durante os anos Obama: os republicanos se opõem ao socorro econômico não porque acreditam que será um fracasso, mas porque temem que seja um sucesso, ajudando as perspectivas políticas dos democratas e legitimando um papel ampliado do governo.

Mas também existem algumas objeções de boa-fé a partes da proposta de Biden, vindas de democratas como Joe Manchin e de comentaristas econômicos progressistas como Larry Summers. O que esses comentaristas objetam, de maneira geral, são os planos para uma vasta distribuição de “cheques de estímulo” (não são cheques e não se trata de estímulo, mas isto não importa aqui): pagamentos de US$ 1,4 mil para muitas famílias.

Estou escrevendo este comentário para explicar por que acredito que essas objeções estão equivocadas. Para ser mais preciso, diria que esses críticos estão dando a resposta certa à pergunta errada.

Vamos começar do começo: o principal objetivo do plano proposto não é o estímulo, mas, sim, o alívio diante do desastre. A economia americana continuará deprimida enquanto a pandemia estiver galopante, então o objetivo é ajudar os setores da nossa sociedade que foram mais atingidos pela economia restrita a sobreviver com o mínimo de prejuízo. Nesses setores se encontram famílias com trabalhadores desempregados, empresas prejudicadas pelos lockdown e governos estaduais e locais que não conseguem ficar em déficit e estão sofrendo abalos financeiros.

O cerne do pacote, então, é amparar esses grupos aflitos - maiores benefícios de auxílio-desemprego, alívio financeiro às empresas e socorro aos governos estaduais e locais. E essas coisas, junto com o financiamento das vacinas e os gastos específicos da pandemia, compõem a maior parte dos gastos propostos.

As partes controversas são as amplas doações para famílias, muitas das quais iriam para americanos que estão indo bem. E os críticos estão certos em dizer que muitos dos que receberiam o pagamento não precisam do dinheiro.

Onde eles se equivocam é em presumir que os cheques de estímulo (vou chamá-los assim, já que todo mundo chama) concorrem com as outras partes do pacote. O fato é que o governo americano não tem limites financeiros. Não tem problemas para tomar empréstimos e os empréstimos que toma estão muito baratos, com a taxa de juros de 10 anos pouco acima de 1%.

Essa taxa de juros está muito abaixo da taxa de crescimento econômico projetada. O Departamento de Orçamento do Congresso espera que o valor do PIB potencial - com capacidade total empregada - cresça a uma taxa anual de 3,7% na próxima década. Isto significa que tomar empréstimos agora não acumulará grandes fardos para o futuro: qualquer dívida que criarmos tenderá a se dissipar com o tempo e o crescimento do PIB.

E os cheques de estímulo ajudariam a construir essa base, por duas razões. A primeira é que os cheques desempenhariam um papel útil. Os benefícios de auxílio-desemprego não chegarão a todos os afetados pela pandemia, então alguns dos gastos com pagamentos generalizados atingiriam pessoas que precisam de ajuda. Não seriam tão bem direcionados quanto outras formas de auxílio, mas, de novo, dinheiro não é a restrição aqui.

A segunda é que os cheques de estímulo são muito populares e uma coisa que os democratas prometeram. Então por que não honrar essa promessa e fazer algo que crie sustentação para todas as medidas do pacote de resgate?

Vamos colocar desta maneira: dada a situação econômica e política em que estamos, os cheques de estímulo são um “e”, não um “ou”. Eles são complementares às outras ajudas emergenciais, não competem com elas. E as preocupações com o risco de fornecermos auxílio demais e de isso gerar um ciclo inflacionário?

Estou realmente otimista com as perspectivas econômicas de curto prazo. Há uma boa chance de a economia voltar a crescer no final deste ano, assim que as vacinações tiverem produzido imunidade coletiva e os americanos puderem retomar a vida normal. Se e quando isto acontecer, a economia não precisará de nenhum estímulo que o pacote ainda estiver oferecendo.

Mas e daí? Estaremos saindo da pandemia com a inflação ainda abaixo da meta do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), e não faria mal nenhum ultrapassar essa meta e aquecer a economia, gerando um pouco de excesso de inflação - e esse “pouco” é tudo o que aconteceria, porque a inflação responde lentamente às condições econômicas. Se o boom ficar grande o suficiente e se estender por tempo suficiente para que a inflação realmente comece a parecer uma preocupação, o Fed sempre poderá controlá-la aumentando modestamente as taxas de juros.

Precisamos nos lembrar da lição do estímulo de 2009: os riscos de fazer pouco são muito maiores do que os riscos de fazer muito. Se fizermos pouco, provavelmente não teremos uma segunda chance. Se fizermos muito, o Fed conseguirá conter qualquer aumento na inflação facilmente.

Então, por favor, não implique com esse plano. Nem todo dólar precisa ser gasto da melhor maneira possível. O essencial é ter velocidade, simplicidade e auxílio generalizado, não pureza. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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