‘O Banco Central amarrou as próprias mãos’

‘O Banco Central amarrou as próprias mãos’

O economista Alexandre Schwartsman acredita que o Banco Central ficou com uma atuação limitada desde que mudou o tom no combate à inflação. Na reunião de janeiro, o Comitê de Política Monetária surpreendeu parte do mercado ao manter e não elevar a taxa básica de juros. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Entrevista com

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2016 | 20h54

Como o sr. avalia o resultado do IPCA?

O que preocupa não é o fato de o IPCA de janeiro ter sido alto. O que preocupa é que há sinais de mudanças na dinâmica inflacionária de uns meses para cá.

Quais são os sinais?

Uma das formas de se ver isso é nos indicadores de difusão. O número de hoje (ontem) sugere que é processo muito mais complicado. Obviamente, ele não está sendo determinado pelas decisões de política monetária de janeiro. Esse processo está refletindo a política monetária do passado, e está sugerindo que aquela política já não era adequada.

Depois da mudança de tom o que o BC pode fazer?

Ele poderia subir o juro, mas deu indicações de que não deve fazer isso. De alguma forma, o BC amarrou as próprias mãos. Vai ser muito esquisito se na reunião de março (do Copom) o juro subir. O BC vai ter de esperar até o fim de abril para ver o que está ocorrendo. E, nesse meio tempo, se vier um número muito ruim em fevereiro e março, ele pode ser um indicativo de que estamos com problemas. Em março, pode até ocorrer uma inflação um pouco mais tranquila porque é quando deve bater o efeito da conta da luz. Mas seria um fator pontual. 

O sr. acredita que a inflação termina o ano em quanto?

Na casa de 8%, talvez mais.

O que pode ser feito para a inflação retornar pelo menos para o teto da meta

Não é difícil. É só fazer o oposto do que fizeram até agora. Mas a chance de isso ocorrer é baixíssima. Temos de nos conformar que vamos ficar com a inflação alta por muito tempo. E isso é ainda um cenário positivo porque há um cenário alternativo no qual a coisa escapa, sai do controle, com 10% ou mais de inflação.

Como o País chegaria nesse cenário?

Se, por exemplo, o BC cortar juros, e o governo deixar de fazer o ajuste fiscal. Aí, a coisa vai embora. 

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