''''O Banco Central deve ter cautela e parar para observar''''

Economista do Banco ABN Amro alerta para fatores que têm pressionado a inflação e não descarta alta do juro em 2008

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2006 | 00h00

O economista-chefe do Banco ABN Amro para a América Latina e ex-diretor do Banco Central (BC), Alexandre Schwartsman, está entre os analistas que defendem que o BC interrompa o ciclo de corte de juros para observar o comportamento da inflação. Ele conversou com o Estado ontem à tarde.   Ouça  áudio da entrevistaHá algum risco para o cumprimento da meta de inflação de 2008?Sim. É baixo, mas existe nas atuais circunstâncias. Quais são essas circunstâncias?O BC deve divulgar, no fim do mês, a sua projeção de inflação para 2008. Vamos ver que o ponto central da projeção está mais próximo da meta de 4,5% do que na última reunião, que estava em 4,10%. As condições ali eram razoavelmente parecidas com as que temos hoje. O câmbio estava em R$ 1,95 e a taxa Selic era de 12%. Agora, provavelmente o câmbio estará em R$ 1,95 e a taxa de juros, em 11,75%. Além disso, tem havido algumas surpresas inflacionárias no trimestre. A probabilidade de ultrapassar o 4,5% será maior nas projeções de setembro do que em junho. Se esse relatório mostrar que a probabilidade de a inflação superar 4,5% cresceu, o BC deveria interromper os cortes dos juros para observar melhor o cenário?Sim. E não é uma questão apenas numérica. Temos uma série de motivos que sugere cautela adicional no que diz respeito à meta. Temos tido surpresas inflacionárias para cima. Há sinais de que a atividade está evoluindo a taxas realmente rápidas. Os níveis de utilização de capacidade estão bastante elevados. Tudo isso leva a uma produção maior, mas com custos crescentes, que vão aparecer na inflação. O BC deve ter uma atitude de cautela, de parar a queda da taxa de juros depois desse último movimento. A partir daí, observar para ver o que vai acontecer com a inflação e com a demanda. Há duas possibilidades: a inflação segue evoluindo modestamente, o que permitiria a retomada do ciclo de quedas, ou começa a ameaçar desviar, o que pode obrigar o BC a subir o juro. Dá para estabelecer qual seria esse período de observação?É difícil estabelecer a priori. Dependerá dos dados que vão aparecendo. Mas acho que, para um julgamento, precisaria de algo entre 4 e 6 meses. Existe a possibilidade, portanto, de o BC ter de subir o juro no ano que vem, como ocorreu em 2004?Não dá para descartar.

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