Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O Banco Central está mais tolerante com a inflação?

O guardião da moeda tem justificativas para essa postura mais amigável contra a alta nos preços

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 19h21

De um cão de guarda não se espera muita afabilidade, sobretudo com estranhos ou com suspeitos. Pois o Banco Central, o implacável guardião da moeda, vem passando essa impressão. A inflação voltou a mostrar sua cara e, no entanto, na sua função de calibrar a política monetária (política de juros) para combater a inflação, o Banco Central vem se mostrando mais cocker spaniel do que pastor-alemão.

Até maio, a inflação estava sendo asfixiada pela baixa demanda, insuflada pela queda de renda e pelo desemprego. No entanto, a partir do mês seguinte, os preços no atacado começaram a disparada que acabou por contaminar os preços no varejo (custo de vida). Em setembro, o IPCA, medidor oficial de inflação para efeito de fixação da política de juros, ficou em 0,64% e, em outubro, em 0,86% (veja o gráfico). E, no entanto, a decisão do Copom foi a de manter os juros básicos (Selic) nos 2,0% ao ano em agosto e em outubro.

Há uma razão conhecida e outra velada para essa postura mais tolerante, digamos assim. A razão conhecida é a de que, no diagnóstico do Banco Central, a atual escapada é episódica e tende a refluir. Baseia-se no aumento repentino da demanda que se seguiu à distribuição de generosa ajuda de emergência à população carente; e ao repentino desajuste dos estoques que se seguiu à paralisação imposta pela pandemia.

A razão não reconhecida pelo Banco Central deve ter sido a necessidade de não agravar o rombo fiscal. Os juros da dívida quase nunca são pagos no vencimento. O Tesouro emite nova dívida correspondente aos juros e os incorpora ao principal. Com juros mais baixos, a parcela do serviço da dívida fica também mais baixa e segura o avanço. Assim, pode evitar que chegue rapidamente aos 100% do PIB, que é o novo espantalho para o qual vêm advertindo os analistas de economia.

Se confirmada, essa decisão tem lá sua ligação com a política monetária na medida em que uma dívida que demora mais a crescer pode evitar o alastramento da desconfiança e, assim, evitar nova corrida ao dólar e, portanto, nova disparada dos preços no atacado.

Essa postura do Banco Central enfrenta ameaças que, no entanto, podem não acontecer. A primeira delas seria a do agravamento das contas públicas. Se houver uma segunda onda de covid-19, nova distribuição de ajudas de emergência pode ser acionada, como querem os políticos e como já admitiu o ministro Paulo Guedes. Se isso acontecer, novo rombo de uns R$ 100 bilhões pode se abrir.

Se houver mais essa distribuição de recursos públicos, a ela se seguirá novo aumento da demanda e, portanto,  novo aumento de preços dos alimentos e dos materiais de construção, como se viu na primeira onda.

A consequência desse alargamento do rombo pode gerar perda de confiança. Na semana que passou, o ministro Paulo Guedes advertiu que a falta de rolagem satisfatória da dívida poderia abrir as portas para a hiperinflação.

Diante de conjunto de incertezas, pode-se esperar que o governo Biden, nos Estados Unidos, tende a ajudar a recuperação econômica no mundo inteiro e, também, nos países emergentes, como o Brasil – apesar da má vontade com que o governo Bolsonaro vem tratando a vitória do Partido Democrata nas últimas eleições.

A principal proposta de política econômica do governo Biden é acionar investimentos multibilionários em infraestrutura e em energia limpa, para criar empregos e impulsionar a demanda. A ideia é a de reeditar o New Deal dos anos 1930, quando o presidente Roosevelt conseguiu tirar da grande depressão a economia dos Estados Unidos e do resto do mundo.

Por enquanto, o Banco Central tem justificativas para essa postura mais amigável contra a inflação. Mas, se a coisa desandar, poderá tirar do canil seu pastor-alemão.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.