'O Banco Central mostrou que pretende agir com bastante cautela'

Para economista, antes da reunião de agosto mercado achava que o BC poderia ser mais agressivo no corte do juro

Entrevista com

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2011 | 03h06

Diferentemente do que ocorreu em agosto, quando a redução da taxa básica de juros (Selic) de 12,5% para 12% ao ano pegou a maioria dos analistas de surpresa, o mercado financeiro já estava preparado para o novo corte de 0,5 ponto porcentual feito pelo Banco Central (BC) ontem.

Para Mauricio Molan, economista-chefe do banco Santander, esse ajuste das expectativas é fruto de um melhor entendimento do mercado em relação à estratégia do BC. "O mercado estava acostumado a ver um BC esperando os fatores de risco se manifestarem para agir. Dessa vez, o BC agiu preventivamente", observou.

Nas contas dele, a Selic terá mais uma redução de 0,5 ponto em 2011 e ficará em 11% durante todo o ano de 2012. Ele conversou com o Estado logo após o término da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O Banco Central acertou ao reduzir novamente a taxa de juros?

Não só pela manutenção do corte do juro, mas também pelo teor do comunicado, ficou claro que o Banco Central sinalizou que o cenário não se alterou em relação à última reunião. Em outras palavras, os planos do BC continuam totalmente mantidos. Nem o cenário externo está mais adverso do que ele esperava nem a atividade econômica doméstica está pior do que ele imaginava.

Mas o caminho trilhado pelo BC está correto?

A tendência baixista para a taxa de juros faz sentido dentro de um ambiente internacional mais adverso e dados piores de atividade econômica. É importante ressaltar a moderação do conteúdo da nota (divulgada após o encontro). O texto sinaliza que o tamanho total do ajuste do juro deve ser moderado, o que mostra um importante respeito pelo fato de a inflação persistir elevada. É algo que o mercado vinha questionando há algum tempo. O mercado tinha uma visão, após a reunião de agosto do Copom, de que o BC poderia ser mais agressivo (na redução do juro). E, com isso, poderia ignorar o fato de a inflação estar acima da meta. Mas o BC mostrou que pretende agir com bastante cautela.

A meta de 2012, nesse cenário de hoje, poderá ser cumprida, como vem argumentando o Banco Central?

Sim, a inflação vai ficar dentro do intervalo de tolerância do BC, provavelmente um pouco acima do centro da meta, mas abaixo do nível atual. Nossa projeção é de 5,7% (o centro da meta é 4,5%, com margem de tolerância de dois pontos para cima ou para baixo).

Por que a inflação deverá permanecer acima da meta?

A inflação brasileira tem um componente inercial grande. É difícil baixar, principalmente, os preços dos serviços, que têm andado em um ritmo entre 9% e 10% ao ano. Esse grupo deve continuar sustentando a inflação no ano que vem, sobretudo por causa do aumento já contratado do salário mínimo (estima-se que seja algo em torno de 14%).

As críticas do mercado ao BC após a reunião de agosto do Copom ocorreram por causa de uma discordância de estratégia ou se explicam mais por uma falha de comunicação do BC?

As críticas decorreram do fato de o mercado ter um cenário diferente do cenário do BC. O mercado estava acostumado a ver um BC esperando os fatores de risco se manifestarem para agir. Dessa vez, o BC agiu preventivamente. De fato, alguns fatores de risco levantados pelo BC acabaram se manifestando, principalmente o agravamento da situação externa. Por isso, os cenários do mercado e do BC se aproximaram.

O BC enxergou antes da maior parte do mercado esse cenário de deterioração global?

Não é questão de enxergar antes, mas sim de agir antes do que o mercado estava acostumado. O mercado já enxergava um risco, mas tinha como histórico de atuação do BC uma ação após o ocorrido. Desta vez, o BC agiu antes do ocorrido.

Como o cenário externo não piorou, até o momento, como esperava o BC, os riscos de uma inflação ainda mais alta crescem?

Sim. Se não houver uma deterioração do quadro externo e assistirmos a uma recuperação maior dos mercados, provavelmente o viés para a inflação será altista.

O BC corre, então, o risco de ter de elevar o juro em 2012?

Sim, mas o Banco Central está ciente dessa possibilidade. É um risco, mas faz parte do trabalho do BC.

Qual o cenário para a taxa Selic?

Mais um corte de 0,5 ponto na última reunião do Copom de 2011, com a taxa encerrando o ano em 11%. Em 2012, projetamos estabilidade.

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