André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

O Banco Central sempre atrás da inflação; leia análise

Copom demonstra dificuldade de se antecipar ao aumento da inflação e espera os riscos se materializarem para então agir

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues*, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 08h00

BRASÍLIA - O comunicado desta quarta-feira, 4, em que o Copom elevou a Selic (a taxa básica de juros) em 1,00 ponto porcentual, para 5,25% ao ano, reforça uma percepção dos últimos meses: a de que o Banco Central está correndo atrás da curva de inflação, e não se antecipando a ela.

Há pelo menos dois exemplos disso.  

Primeiro, quando o choque de alimentos ficou claro no segundo semestre do ano passado, o BC apressou-se a defender que ele seria transitório. Está lá, registrada no comunicado da reunião de setembro do Copom, a avaliação de que a inflação iria se elevar “no curto prazo”. Na ocasião, o BC citou a “alta temporária nos preços dos alimentos”.

Em outubro, o BC dobrou a aposta: “Apesar da pressão inflacionária mais forte no curto prazo, o Comitê mantém o diagnóstico de que esse choque é temporário”. Em dezembro, triplicou a aposta, citando o “arrefecimento previsto para os preços dos alimentos”.

Este arrefecimento, no entanto, nunca veio. Ainda assim, em janeiro deste ano o BC repetiu o diagnóstico de que o choque de alimentos era temporário, embora tenha reconhecido que ele era mais persistente “que o esperado”. Isso se repetiu nos meses seguintes. Apenas em junho o Copom desistiu de tratar diretamente da alta de alimentos como algo temporário. Agora, em agosto, foi preciso acelerar a alta da Selic.

O segundo exemplo foi trazido pelo comunicado publicado nesta quarta-feira. Nele, o BC, que não estava tão preocupado com a inflação de serviços em junho, indica que começou a mudar de ideia.

Em junho, o BC afirmou que seguia atento “ao comportamento dos preços de serviços conforme os efeitos da vacinação sobre a economia se tornam mais significativos”. A visão era de que, com o fim do isolamento social, a procura por bares, restaurantes, salões de beleza e outros prestadores de serviços poderia abrir espaço para a remarcação de preços.

Durante a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), em 24 de junho, o Estadão/Broadcast chegou a questionar o presidente do BC, Roberto Campos Neto, sobre a inflação de curto prazo projetada pela autarquia para os meses de seguintes: 0,62% em junho, 0,39% em julho e 0,26% em agosto. A reportagem perguntou, especificamente, o que justificaria uma inflação de apenas 0,26% em agosto, sendo que já havia na ocasião um risco crescente trazido pelos preços de energia e o próprio BC havia citado a possibilidade de aceleração de preços de serviços. Em sua resposta, Campos Neto disse: “No Brasil ainda temos uma inflação de serviços bastante baixa”.

No comunicado publicado ontem, a visão parece ter mudado. O BC afirmou que os últimos indicadores de divulgados mostram uma “composição mais desfavorável” da inflação. “Destacam-se a surpresa com o componente subjacente da inflação de serviços e a continuidade da pressão sobre bens industriais, causando elevação dos núcleos.”

Ao justificar a alta de 1,00 ponto porcentual, o BC também citou uma “piora recente em componentes inerciais dos índices de preços, em meio à reabertura do setor de serviços”. Na prática, o que não era um problema em junho virou um problema neste início de agosto.

É importante lembrar que faz parte ofício do BC se antecipar a possíveis dificuldades, inclusive para que as expectativas de inflação sejam corretamente conduzidas. Em outras palavras, o BC não deve elevar os juros apenas quando a inflação já disparou ou quando a meta está perdida. Também não faz parte do ofício minimizar riscos – como no caso dos alimentos – ou esperar que eles se materializem para só então agir.

Vale pontuar que a inflação projetada atualmente pelo BC em 2021 é de 6,5%. Sua meta era de 3,75%. Os “choques temporários” citados no ano passado seguem em marcha este ano.  

*REPÓRTERES DE ECONOMIA EM BRASÍLIA

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