bolsa

E-Investidor: Itaúsa, Petrobras e Via Varejo são as ações queridinhas do brasileiro

O banqueiro que impôs a austeridade

Axel Weber, ex-presidente do BC alemão, diz que a única saída para tirar a Europa da crise era uma rigorosa política de corte de gastos

GENEBRA, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h09

Quando os livros de história econômica contarem em 50 anos a crise mundial atual, terão de dedicar uma parcela especial do relato a um banqueiro que, com seu rigor alemão e sua posição de poder, desenhou o sistema que, para muitos, acabou asfixiando a Europa. Trata-se de Axel Weber, presidente do Bundesbank, o poderoso banco central alemão, entre 2004 e 2011 e hoje o presidente do conselho do UBS, um dos maiores bancos do mundo.

O Estado participou de um encontro restrito com Weber. Numa espécie de divã, o alemão expressou suas convicções em relação ao futuro da economia mundial e deixou claro que, apesar de hoje atravessar sua crise mais longa, a Europa "não tinha outra alternativa" que não fosse a austeridade.

Weber foi um dos artífices das exigências impostas sobre Grécia, Irlanda e Portugal para que recebessem - em grande parte da Alemanha - recursos de um plano de resgate. Para seus opositores, essa receita provocou o maior índice de desemprego da Europa e uma profunda desilusão em relação ao projeto de integração.

A seguir, alguns dos principais trechos da conversa com o banqueiro.

Austeridade. Remando contra as críticas na Europa com relação à receita usada para retirar o continente da crise, Weber insiste: "Não haveria alternativa à austeridade" que foi exigida por Bruxelas, pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e por ele mesmo enquanto foi o presidente do cofre forte da Europa entre 2004 e 2011. "Sendo alemão, não vejo a palavra austeridade como algo ruim", ironizou. "Países perderam o acesso ao mercado de capitais simplesmente porque gastaram demais. Essa é a realidade."

Weber silencia quando é questionado sobre o impacto social e apenas observa que uma solução para essa parte do problema terá de ser política.

Crise. O alemão admite, porém, que apesar dos planos de austeridade, a crise ainda não foi superada. "As repercussões da crise ainda não terminaram. Parece que os mercados estão mais entusiasmados e otimistas que a própria realidade", advertiu. "Não acho que já estejamos fora da zona de risco."

Ele observa, porém, que os fundamentos da economia mundial são hoje mais sólidos que há um ano. Mas ainda assim, diz ele, é preciso cuidado com o otimismo. "Esse clima foi causado mais pela estratégia de políticas monetárias ultraexpansionistas do que pelas reformas ou pela recuperação de fato das economias."

Weber foi um dos que, dentro do BC alemão, insistia em não usar injeções de liquidez como solução para a crise. Em 2011, porém, deixou o BC alemão e o conselho do Banco Central Europeu por divergências em relação ao caminho a ser tomado.

Bancos. Parte da superação da crise, no seu ponto de vista, também passará por uma reforma dos bancos. "As instituições financeiras não estavam preparadas para a crise", admitiu. Para ele, os bancos terão de ser mais transparentes, mais simples e menos alavancados para sobreviver. "O setor bancário será muito diferente no futuro. Nossos modelos terão de ser adaptados, o que é sempre mais difícil fazer durante uma crise. Mas estamos caminhando para um futuro mais estável."

Weber, porém, não esconde o dano que os bancos causaram ao mundo e como sua imagem está no ponto mais baixo. Se não houver uma reforma, o setor não pode ter ilusões de que os cidadãos aceitarão novos pacotes para resgatar essas instituições, adverte Weber. "No caso de uma nova crise, não haverá uma nova onda de resgates e os bancos vão quebrar."

Brasil. Outra tendência dos grandes bancos internacionais será a de buscar cada vez mais uma nova clientela nos mercados emergentes, que estão em plena expansão. Weber destaca a posição do Brasil e insiste que o UBS quer transformar o País numa espécie de plataforma para atender clientes não apenas do País, mas de toda a região latino-americana. "Temos de estar presentes de uma forma significativa no Brasil. Estamos reestruturando nossa atividade no País. Mas a meta é a de expandir." Segundo ele, parte da clientela "afluente" da Europa está sendo substituída por clientes de países emergentes e, além da América Latina, a Ásia é uma grande prioridade. Mas os bancos tradicionais não vão apenas em busca dos milionários. Segundo ele, existem cerca de 2,5 bilhões de potenciais clientes no mundo em desenvolvimento que ainda não têm conta bancária ou precisam expandir o uso de serviços financeiros. "Os bancos vão atrás desse grupo." / J.C.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.