O baque alemão

A economia alemã, a mais forte da Europa, está no seu pior momento desde que as Contas Nacionais começaram a ser medidas, em 1970. Ontem, o governo alemão confirmou que o PIB no primeiro trimestre deste ano despencou 3,8% em relação ao PIB do trimestre anterior. É um número que aponta para um tombo neste ano entre 5% e 6%, em razão da queda de 9,7% das exportações e de uma selvagem redução de estoques por parte da indústria. Estes não são só registros estatísticos. Carregam um pacote de escolhas e forte carga cultural. Para não dar a impressão de que este comentário vai exumar a Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant, vamos logo às explicações.Os esquemas de estruturação da economia europeia, especialmente a alemã, ajudam a amortecer as crises. Construídas dentro dos princípios da social-democracia, as instituições preveem mecanismos automáticos de estabilização da renda e da atividade econômica. O desempregado, por exemplo, tem direito a um seguro-desemprego que, em alguns países, alcança até 80% do salário. É o que, nos momentos de turbulência financeira e de recessão, mantém a economia funcionando, ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, onde o impacto sobre a renda do trabalhador é bem mais cruel.Esses mecanismos do Estado do bem-estar (welfare state) operam como eficientes amortecedores da crise no seu início, mas tendem a acentuar a paradeira caso ela se prolongue, como agora, porque são temporários. Garantem a renda parcial do desempregado durante período que varia entre 6 e 11 meses, mas, passado esse tempo, o jogam na rua da amargura, justamente num momento em que o Estado está mais carente de recursos porque aumentou dramaticamente suas despesas com socorros oficiais e, também, com esse dispêndio social automático extra.A atual situação das finanças públicas dos países europeus é delicada. Na zona do euro, só o déficit público (diferença entre o que os Estados arrecadam e o que gastam) deve ultrapassar 1 trilhão de euros (US$ 1,4 trilhão) neste ano. Medido de outra forma, esse valor corresponderá a 5,3% do PIB em 2009 e a 6,5% do PIB em 2010, como se pode depreender pelas projeções da Comissão Europeia. Para entender a magnitude desse rombo, basta levar em conta que uma das três condições definidas pelo Tratado de Maastricht para que um país pudesse adotar o euro em 1999 foi apresentar um déficit público não superior a 3% do PIB. De lá para cá a deterioração fiscal é de quase 100%. (Ver tabela.) O desemprego também não dá sinais de arrefecimento. Cresceu em todos os países da União Europeia. Em alguns atingiu níveis particularmente altos, como Espanha (17,4%), Bélgica (11,2%) e Grécia (9,1%). Na Espanha, onde cerca de um terço da força de trabalho vive de contratos temporários e não tem acesso a seguro-desemprego, o número de inativos dobrou em apenas um ano.Esta não deixa de ser uma crise dos países ricos. É a primeira vez em 50 anos que a União Europeia volta esperanças para fora de suas fronteiras. Espera a recuperação americana e torce quase desesperadamente para que os países emergentes, especialmente China, Índia, Brasil e Rússia, assumam a função de locomotivas da economia mundial. ConfiraBumbum de fora - "É quando a maré baixa que se descobre quem está nadando nu", disse o bilionário Warren Buffett.A queda dos juros vai mostrando quem vai ser apanhado pelado. Na lista estão os benefícios dos fundos de pensão e da aposentadoria complementar; os spreads dos bancos; as taxas de administração dos fundos de investimento.E tem mais: os consórcios; os juros cobrados pelos cartões de crédito; o comércio e a indústria que vivem mais do retorno financeiro do que do seu negócio; os encargos dos depósitos judiciais; o imposto excessivo na renda fixa.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2009 | 00h00

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