O BC da Alemanha contra o mundo

Presidente do Bundesbank opõe-se a fazer do BCE uma instituição de empréstimo de última instância na tentativa de socorrer o euro

JENS, WEIDMANN, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h04

Artigo

Um observador desavisado assistindo à reunião da quarta-feira na sala E-400 da Paul Löbe House, prédio pertencente ao Parlamento em Berlim, poderia pensar que se tratava da defesa de uma tese de doutorado. O candidato sentava-se numa mesa separada, o rosto jovem aparentando timidez e confiança. Sentados à sua frente, os membros do Comitê de Finanças do Parlamento alemão, o Bundestag, podiam ser facilmente confundidos com uma junta da examinadores de uma universidade.

Mas o homem sendo questionado era Jens Weidmann, presidente do banco central alemão. E não demorou muito para a plateia perceber que ele não devia ser subestimado. Falando com voz tranquila, mas firme, Weidmann fez sua avaliação da política de socorro dos países da zona do euro e o Banco Central Europeu (BCE). No final, foi ele quem deu as notas - e não foram boas.

Os políticos ainda não fizeram o dever de casa, disse o presidente do Bundesbank em tom crítico. Atribuiu a culpa pela crise de confiança no zona do euro aos políticos, afirmando que eles estavam colocando em risco a independência do banco central. E concluiu com um comunicado sem o qual nenhum presidente de um banco central encerra sua intervenção. O Banco Central Europeu, afirmou, tem um único objetivo, ou seja, "manter os preços estáveis".

Pressão crescente

Na batalha para salvar o euro, o BCE está sendo pressionado pelo mundo todo para adquirir quantidades ilimitadas de títulos soberanos de países-membros em dificuldades. Mas o chefe do Bundesbank está dizendo não. Se o BCE ceder à pressão, afirma Weidemann, não estará apenas violando os tratados europeus e a constituição alemã. A medida também será "sinônimo de emissão de eurobônus". A crise em torno da moeda comum atingiu um novo estágio. Menos de dois anos depois de o governo grego admitir pela primeira vez que enfrentava profundos problemas financeiros, os políticos da Europa estão ficando sem opções para salvar o euro. Eles já reuniram uma meia dezena de pacotes de ajuda financeira e meio trilhão de euros. Os chefes de sete governos foram destituídos ou renunciaram. Muitos dos princípios com base nos quais a moeda comum se baseou foram violados, desde a proibição de assumir as dívidas de outros países até a exigência de manter o banco central da zona do euro fora da política.

A violação das regras tornou-se prática corrente, mas em vão. A Grécia está mais perto do que nunca de deixar a zona do euro, e a Itália parece estar caminhando inexoravelmente na direção de uma bancarrota nacional.

Estes são tempos de desespero, tanto que muitos líderes da União Europeia acham que chegou a hora de acabar com o último tabu remanescente na zona do euro. Até agora, o BCE estava comprando um número limitado de títulos soberanos italianos, espanhóis e portugueses para amparar o euro. Mas se muitos políticos europeus conseguirem o que desejam, no futuro o BCE responderá por toda a dívida pendente dos países devedores, permanentemente e de modo ilimitado, violando todas as leis aplicáveis. A receita deles é imprimir dinheiro e afogar a crise da dívida num mar de liquidez.

Risco de inflação

Para Weidmann, o que muitos políticos consideram a solução mais fácil só vai exacerbar os problemas. Será um "doce veneno" para as nações endividadas, em desacordo com todas as tradições do Bundesbank, e um meio de financiar os governos que já provocou uma catástrofe financeira na Alemanha, na forma de hiperinflação, na década de 20.

Há semanas, a resistência de Weidmann tem sido tópico de todas as cúpulas financeiras. Ele sabe que, na Alemanha, tem apoio da maior parte da população e de muitos especialistas. Mas a pressão de fora está crescendo. Do presidente Barack Obama ao presidente francês Nicolas Sarkozy e o presidente da Comissão Europeia José Manuel Barroso, todos insistem para os alemães abandonarem a resistência ao plano do BCE.

Muita coisa está em jogo para o jovem presidente do banco central alemão. O ex-presidente do Bundesbank Axel Weber e o chefe dos economistas do BCE, Jurgen Stark, renunciaram em meio a uma disputa sobre compras de títulos soberanos, assunto que eles acharam que os isolava cada vez mais dentro do BCE. E também se sentiram abandonados pelo governo em Berlim. Weidmann também não pode ter confiança de que o governo apoiará por muito tempo sua posição. Merkel e o ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, criticados por aliados, enviaram sinais de que podem fazer concessões. Como resultado, a campanha do mais importante chefe de Finanças da Alemanha se transformou numa briga pessoal para afirmar sua independência.

Muito espaço

Há algumas semanas, o presidente do Bundesbank caminhava pela sede do FMI em Washington. A reunião do FMI e do Banco Mundial do último trimestre tinha apenas começado e os ministros de Finanças, presidentes de bancos centrais e autoridades do alto escalão dos governos conversavam nos corredores. No passado, quando trabalhou para o governo como chefe de departamento na chancelaria alemã, Weidmann procurou manter-se à distância do escalões mais altos. Agora, numa posição próxima do ministro de Finanças, ele aproveitou para provocar o mais importante membro do gabinete de Angela Merkel. "Você deixou de propósito tanto espaço entre nós?", ele perguntou. O pódio de fato era muito amplo, com espaço suficiente para acomodar uma equipe de futebol. "Fizemos isso por causa da sua independência", respondeu Schäuble com um sorriso sarcástico.

O ministro sentiu-se incomodado. Ele já havia passado horas ouvindo seus contrapartes americano, inglês e francês, que o atormentaram com perguntas, para finalmente concordar em usar o BCE para escoar o euro. Mas o homem ao lado dele se mostrou inamovível.

Lições aprendidas em Berlim

Desde que Weidmann assumiu o cargo, há seis meses, não deu a mínima impressão de que depende da chanceler e do seu governo. Algumas semanas depois de assumir a presidência do Bundesbank passou à ofensiva contra a política de socorro financeiro dos países-membros do euro e também contra a maioria do Conselho do BCE. No início de agosto, votou contra o restabelecimento de um programa de compra de títulos do BCE e um plano para compra de títulos soberanos da Itália e da Espanha. Mas Weidmann ficou basicamente sozinho, com a maioria esmagadora votando a favor da medida. Foi uma derrota amarga, mas para ele não abandonou a resistência. Pelo contrário, aplicou o que aprendeu na política berlinense, e esperou uma nova oportunidade para usar o freio. E isso ocorreu em breve.

Como o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Feef) tem recursos limitados, Sarkozy quis usar uma artimanha para dar ao fundo acesso aos fundos ilimitados do BCE. Ele seria convertido em banco. "Fora de questão", disse Weidmann irritado. O plano permitiria que o BCE indiretamente fornecesse somas ilimitadas de dinheiro para financiar orçamentos governamentais. Weidmann resistiu e dessa vez os colegas do conselho do BCE vieram em seu apoio.

Controlando o noticiário

No cargo de assessor de governo, contudo, Weidmann não só internalizou a arte do timing político. Aprendeu também que os sucessos só contam quando apropriadamente embalados, como a mais recente disputa sobre os chamados direitos especiais de saque (SDR na sigla em inglês) do Bundesbank. Estes direitos consistem em bilhões em fundos a receber que são contados como parte das reservas do Bundesbank e, como ouro e divisas estrangeiras, podem também ser convertidos em dinheiro.

A ideia era que os países da união monetária poderiam transferir seus direitos especiais de saque para o fundo de ajuda financeira europeu de modo a que eles ficassem disponíveis para socorrer o euro. A questão foi aceita unanimemente na cúpula do G-20, em Cannes. Mas Weidmann se opôs. Primeiro apresentou seu veto ao seu ex-patrão, que então se opôs à iniciativa. Mas não foi suficiente. No final da reunião, quando o plano já não era mais discutido em Cannes, Weidmann vazou informação sobre as discussões para a imprensa, deixando claro que qualquer tentativa para atingir as reservas do Bundesbank causariam um grande transtorno. Ele não estava errado. Uma reportagem de capa no poderoso Frankfurter Allgemeine Sonntagzeitung levou o título E agora o nosso ouro. Não importa que a reportagem não fez menção aos lingotes do Bundesbank. De qualquer maneira, Weidmann venceu a batalha. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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