O BC dos puxadinhos

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar os juros básicos (Selic) em apenas 0,25 ponto porcentual, para 12% ao ano, não contribui para a recuperação da credibilidade do Banco Central (BC), abalada com a excessiva tolerância demonstrada com o avanço atual da inflação.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2011 | 00h00

O próprio racha dentro do Copom, que apontou 2 votos (em 7) favoráveis a uma dose mais alta dos juros, corrobora a percepção de que esta direção do Banco Central prefere olhar para os estragos com certo conformismo, apostando sempre em que "logo mais teremos a virada".

O comunicado mencionou "o ritmo ainda incerto de moderação da atividade econômica, bem como a complexidade que ora envolve o ambiente internacional". Ou seja, reconheceu a existência de incertezas para a trajetória futura dos preços. Diante delas, em vez de optar pelo caminho mais seguro, insistiu na sua política monetária de construir puxadinhos.

É provável que essa postura de produzir o mal aos poucos e por mais tempo (o que contraria famosa recomendação de Maquiavel) comprometa a condução de toda a política econômica do governo Dilma, porque pode não provocar a convergência para a meta nem no ano que vem, como mencionada nos comunicados do Banco Central.

A evolução do IPCA-15 (a medida da inflação oficial a cada 15 dias) divulgada quarta-feira mostrou que a inflação em períodos de 12 meses terminados no dia 15 (agora na altura dos 6,44%) pode estourar já em abril a meta expandida de 6,5% (incluídos aí os dois pontos porcentuais toleráveis).

Por essas e outras razões, é provável que agora se aprofunde a deterioração das expectativas dos agentes econômicos que são também aqueles que fixam os preços. O Banco Central, que há dois meses vem a reboque do mercado, se arrisca a ficar ainda mais para trás. E quanto mais para trás ficar, mais dificuldades terá, lá na frente, para conduzir o processo de contra-ataque.

Há, convenhamos, uma certa probabilidade de que o Banco Central esteja certo. É a situação em que se confirmará forte derrubada das cotações internacionais das commodities, especialmente do petróleo e dos alimentos. Essa é a aposta dos que entendem que a disparada dos preços lá fora, e rapidamente internalizada no Brasil, aconteceu preponderantemente como resultado da excessiva liquidez internacional. Esta, por sua vez, é consequência da forte emissão de moeda praticada pelos grandes bancos centrais, principalmente pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos).

Mas há razões para acreditar em que a alta das commodities está sendo puxada pelo aumento do consumo dos países asiáticos, especialmente da China, e não por aplicação de dinheiro fácil em contratos de fornecimento de commodities. Se for isso, como até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) entende como mais provável, não haverá razões para esperar por baixas acentuadas. Ao contrário, a alta pode continuar.

Isso significa que nova temporada de elevação dos preços da alimentação e do transporte (pela alta dos combustíveis) pode ser inevitável no Brasil e, nessas condições, ficará muito mais difícil empurrar a inflação para dentro da meta num ambiente que já estará aquecido pela paulada do aumento de cerca de 14% do salário mínimo e pela elevação da renda.

CONFIRA

Repercussão do Copom

Imediatamente após cada reunião do Copom pipocam nas telas dos computadores "declarações" de líderes sindicais e dirigentes empresariais, sempre contra a decisão tomada. Se os juros sobem, o Copom tomou decisão absurda. Se caem, caíram pouco e, nessas condições, o Copom foi covarde.

Se der, deu

São sempre declarações-padrão, preparadas antecipadamente, em várias versões, pelos assessores. Liberam a que for mais apropriada. E há quem as publique.

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