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O BC e suas perplexidades

A reunião do Copom foi realizada uma semana antes da explosão da bomba, a do rebaixamento do País; Por isso, a ata chegou com prazo de validade vencido.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2015 | 21h00

Informação concorre com informação e recado, com recado.

Na quinta-feira, por exemplo, o recado passado pelo Banco Central (BC) na Ata do Copom, embora importante, foi alijado do noticiário pela informação de impacto maior, a perda do grau de investimento do Brasil.

O dinheiro é a mercadoria mais importante do mercado e seu preço é definido pelos juros e pelo câmbio. E um dos principais instrumentos de que dispõe o BC para comunicar à sociedade sobre o que vai acontecer com o dinheiro é a Ata do Copom.

A reunião do Copom, presidida por Alexandre Tombini, foi realizada uma semana antes da explosão da bomba, a do rebaixamento do País. Por isso, a ata chegou com prazo de validade vencido. Ainda assim, é preciso prestar atenção, especialmente na perplexidade que transparece do texto, provocada pela barbeiragem - com o perdão da venerável corporação dos barbeiros - cometida pelo governo na proposta orçamentária de 2016, que prevê o rombo inadmissível de R$ 30,5 bilhões.

A perplexidade é consequência da decisão não oficial de que o superávit primário nas contas públicas, de 0,7% do PIB em 2016, tem de ser assegurado e, oficialmente, o rombo ter sido admitido.

Essa questão fiscal tão mal encaminhada mexe com os juros porque produz insegurança sobre a capacidade do governo de honrar seus compromissos, produz rejeição dos títulos brasileiros, alta do dólar no câmbio, inflação e tudo o mais. Essa foi a principal razão pela qual a agência de classificação de risco Standard & Poor’s empurrou o Brasil para o bloco dos possíveis caloteiros.

Sobre a questão fiscal, no parágrafo 25 da ata, o BC produziu uma peça contorcionista. Diz lá que segue esperando o que já ninguém espera: que a administração fiscal possa colaborar no combate à inflação. Acrescenta, com os termos dele, que os pressupostos levados em conta na avaliação da inflação foram prejudicados pela proposta orçamentária de 2016. E mais, que esse fato novo “afetou as expectativas e, de forma significativa, os preços dos ativos” (moeda estrangeira, títulos de renda fixa, ações, etc.) .

Na medida em que “afetou as expectativas”, derrubou a já precária confiança de que o BC empurrará a inflação para o centro da meta (4,5%) ao final de 2016.

E, atenção, se a autoridade monetária foi tomada pela perplexidade com o descarrilamento fiscal, mais ainda deve ter sido tomada com o rebaixamento da qualidade da dívida do Brasil, que não teve como ser levado em conta na ata, porque aconteceu depois.

Conclui-se que o BC voltou a ser refém das derrapadas do governo e que, na execução de sua política de juros, vai ver o que acontece para depois decidir o que fazer. Se o governo arrumar a casa, os juros básicos (Selic) poderão ficar aí nos 14,25% ao ano ou, em alguns meses, poderão até cair. Mas se a bagunça fiscal continuar, o BC seguirá com o dedo no gatilho, disposto ao que tiver de ser.

Bem, isso é o que ficou dito e o que deixou de ser dito por ter acontecido depois. Outra questão, ainda mais importante, é se o BC terá autonomia para seu futuro plano de voo. Enormes pressões dentro do governo são de que deva derrubar de uma vez os juros, entre outras razões, porque a encalacrada das contas públicas estaria impondo o que é chamado de dominância fiscal, situação em que a política monetária já não consegue funcionar.

CONFIRA:

Tanto o IBGE como a Conab confirmam não só que a safra 2014/15 é recorde, mas também que as estimativas concluídas em agosto são de uma produção maior do que a projetada anteriormente. Para o IBGE, a produção de grãos alcançará 210 milhões de toneladas (8,6% mais alta do que a anterior). As projeções da Conab são parecidas: 209,5 milhões de toneladas (8,2% a mais). Os números mais expressivos são os da produtividade. O aumento da produção aconteceu com um crescimento baixo da área plantada: 57,6 milhões de hectares para o IBGE (mais 1,9%) e 58 milhões de hectares para a Conab (mais 1,7%).

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