'O BC vai jogar a economia no buraco se elevar mais os juros'

Para economista da FGV, uma alta de 1 ponto para combater os efeitos do rebaixamento agravaria a situação econômica

Entrevista com

Nelson Marconi, coordenador do Fórum de Economia da FGV

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2015 | 02h03

O economista Nelson Marconi, coordenador executivo do Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), alerta que se o Banco Central decidir elevar juros para combater os efeitos da perda do grau de investimento, a situação econômica do País poderá piorar ainda mais. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual o impacto do rebaixamento do Brasil?

Haverá impacto no dólar em função da saída de recursos do País e o crédito externo também ficará mais caro para as empresas. Isso pode levar ao aumento da taxa de juros. Mas acho que se o Banco Central seguir esse caminho, poderá piorar ainda mais a economia e agravar a situação fiscal. Uma alta de 1 ponto ou 1,5 ponto já provocará um problema sério. Além do impacto nas despesas com juros, isso dificultaria a retomada de investimentos

O que fazer?

O governo terá de fazer um esforço brutal para conseguir um superávit em 2016. Para sair desse imbróglio ele não pode deixar o câmbio se valorizar, pois precisa estimular as exportações; tem de fazer o ajuste fiscal e não pode elevar mais os juros porque senão vai jogar a economia num buraco e a arrecadação cairá mais ainda. O governo precisa mostrar firmeza na direção de conseguir montar um orçamento que indique superávit em 2016 e que vai melhorar a relação dívida/PIB. Aumentar impostos não é a melhor saída. Há espaço para cortar gastos.

Dá para fazer superávit sem aumentar impostos?

Se pensar no horizonte de um ano dá. No curto prazo não dá.

Qual caminho para retomar o grau de investimento?

O principal indicador que as agências olham é a fragilidade fiscal do País que está representada pela relação dívida/PIB. Isso porque os fundos vêm aqui e investem em títulos públicos. Então eles querem saber se a nossa capacidade de pagamento é boa. Se tiver uma melhoria nessa relação, ou estabilidade, temos condições de recuperar. Claro que eles vão olhar o crescimento da economia e o cenário político, que está travando uma série de decisões importantes no executivo e no Congresso e está inibindo investimentos.

O rebaixamento poderá acelerar algumas medidas?

Há duas possibilidades: ou o Congresso vai aproveitar para tentar derrubar - colocar mais pra baixo - o governo e forçar uma mudança. Ou eles vão ver que estão ajudando a quebrar o País. Está indo todo mundo para o buraco junto.

Onde o governo errou?

Na época de bonança das commodities, o governo não poderia ter deixado o câmbio se valorizar muito. Isso provocou um vazamento da demanda para o exterior e a produção nacional caiu. Quando as commodities começaram a cair isso ficou visível. O governo tentou recuperar via política fiscal. Mas num cenário de aumento de gasto, câmbio fora do lugar e inflação subindo é difícil manter essa política. O governo errou quando fez a política fiscal expansionista em 2013. Agora está num buraco que tem de cortar despesa com arrecadação mais baixa.

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