O BNDES terá de ser mais rigoroso nas aplicações

Entre janeiro e maio, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desembolsou R$ 43,2 bilhões, apenas 1% mais do que em igual período de 2011. É uma demonstração da baixa disposição das empresas de tomar recursos para investir.

O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h09

As liberações de recursos foram de apenas R$ 9,7 bilhões, em maio, valor praticamente igual ao do mesmo mês de 2011. O superintendente de Planejamento, Cláudio Leal, acredita que o interesse de investir é demonstrado pelas consultas, que aumentaram 27% entre 2011 e 2012 e são o primeiro passo que dão as empresas que querem crédito.

Os enquadramentos também cresceram (13%), mas as aprovações diminuíram (12%). Num momento de incertezas, em que muitas empresas de porte adiam novos investimentos, há o risco de que o banco seja mais procurado por companhias em pior situação.

Ao mesmo tempo, surgem indícios da qualidade discutível de algumas operações do banco, por exemplo, na área de processamento de carnes. Nos últimos cinco anos, por intermédio da BNDESPar, o banco aplicou quase R$ 9,5 bilhões em ações dos grupos JBS/Bertin, Marfrig e BRF-Brasil Foods, segundo o jornal Valor Econômico. Com a exceção da BRF-Foods, as aplicações perderam valor de mercado. Se as ações fossem vendidas pelas cotações de 19 de julho, o BNDES sofreria um prejuízo de R$ 2,5 bilhões.

Por ora, trata-se de prejuízo hipotético, uma vez que o banco não deverá se desfazer dos papéis. Mas, do ponto de vista da gestão da carteira (da BNDESPar), "foi um desastre", enfatizou um dos sócios da MBAgro, José Carlos Hausknecht. "Os investimentos foram feitos no boom, baseados em projeções excessivamente otimistas. Agora o governo ficou preso a essas empresas."

O que ocorreu na área de carnes sugere que o BNDES poderá ser obrigado a usar critérios mais rigorosos nas concessões de crédito. Será limitado o engajamento na política de combate da estagnação econômica a todo custo. Sem retorno, os créditos de baixa qualidade sujeitariam o banco ao risco de descapitalização, como já ocorreu no passado.

O BNDES depende de recursos federais. Entre 2008 e 2011 recebeu transferências do Tesouro da ordem de R$ 285 bilhões, fora do Orçamento-Geral da União. Beneficiou-se, assim, de um verdadeiro orçamento paralelo, notou o economista Rogério Werneck, em artigo no Estado. A qualidade dos empréstimos atuais repercutirá não só nas contas do banco, mas nas contas fiscais no futuro.

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