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O bom e o ruim do primeiro trimestre

Exportações avançam, mantendo o ciclo de superávit na balança comercial, mas a indústria de transformação brasileira segue enfrentando mais problemas e perdendo força

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2022 | 08h00

O primeiro trimestre do ano trouxe, na área econômica, algumas surpresas boas, outras ruins e aponta para umas tantas incertezas para o resto de 2022.

A principal surpresa boa é a forte entrada de moeda estrangeira que empurrou para baixo a cotação do dólar. Foi uma queda de 14,6% – a maior para um trimestre desde 2009. E o primeiro dia útil de abril mostrou novo recuo, de quase 2,0%.

Esse desembarque de dólares tem algo a ver com outra boa surpresa. O bom desempenho da balança comercial (exportações menos importações), que mostrou superávit no ano de US$ 11,3 bilhões (veja o gráfico). A surpresa não está no saldo positivo, já esperado, mas na sua robustez. Foi 37,6% mais alto do que o obtido no mesmo período de 2021. Isso aconteceu graças à disparada dos preços das commodities no mercado internacional, especialmente grãos, minério de ferro e petróleo, em que o Brasil é forte exportador.

 


A substancial entrada de dólares não se limitou ao desempenho positivo da balança comercial

Também foi consequência da alta dos juros, que atraiu capitais destinados a aproveitar melhor rendimento financeiro no Brasil do que o obtido no exterior. Boa parte desses capitais deve ter ficado em poder de exportadores brasileiros que até recentemente preferiram manter suas reservas no exterior. Mas essas fontes não explicam todo o afluxo. A Bolsa registrou nada menos que R$ 92 bilhões (cerca de US$ 18 bilhões, mais que a balança comercial) em capital estrangeiro neste ano para aplicações destinadas a ações. E tem, também, a entrada de investimentos que deve ter sido de outros US$ 15 bilhões no período.

O chamariz dos juros para esse afluxo de capitais, por sua vez, remete a um fator negativo, que é a disparada da inflação, que fechou no ano passado em 10,06% e que, apesar do impacto da política monetária, deverá passar dos 6,8% neste ano, segundo projeções do mercado aferidas no Boletim Focus. Como já repetido, a principal causa desse estouro interno dos preços é a escalada dos custos de produção no mercado global que se seguiu à disparada das cotações do petróleo e das matérias-primas e à desorganização dos fluxos de produção e distribuição gerados pela pandemia e pela guerra na Ucrânia.

E aí chegamos a outro mau desempenho: o da indústria de transformação, que já vinha capengando e agora enfrenta mais adversidades. A valorização do real, que lhe tira competitividade; a alta dos juros; a falta de componentes e insumos; e a perda de poder aquisitivo do consumidor em consequência do desemprego e da quebra de renda.

A principal incerteza que invade a atividade econômica neste resto do ano tem a ver com o desempenho das contas públicas. Mas há as que sobrevirão ao longo do processo eleitoral

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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