‘O Brasil agora tem um mercado para os outlets’, diz diretor do Iguatemi

O varejo mais robusto e diversificado permite que o País possa investir no formato, que não teve sucesso aqui no passado

Entrevista com

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2014 | 02h05

Para o diretor presidente do Iguatemi, Carlos Jereissati, 42 anos, 18 deles no varejo de alta renda, ficou mais difícil lançar shoppings, já que o setor cresceu muito. Mas, na sua avaliação, o Brasil agora está maduro para novos formatos - para shoppings de luxo, como o JK, os modelos mistos, com hotéis, e até para outlets, o mais recente investimento do grupo. "O Brasil tem uma cultura maior de comprar com vantagem", explica na entrevista a seguir.

As marcas internacionais continuam interessadas no Brasil?

Sim. O Brasil é um mercado enorme, com uma classe média alta estimada em 12 milhões de pessoas. Somos a sexta economia do mundo e temos uma presença global cada vez mais forte, o que faz com que as marcas queiram estar aqui. Inicialmente, olhavam apenas São Paulo e Rio. Hoje, olham também para Brasília, Recife, Curitiba, o que demonstra a busca de novos mercados.

Elas ganham dinheiro no Brasil ou o País é apenas uma vitrine?

Elas não se expandiriam aqui se não vissem uma oportunidade de crescer e ganhar dinheiro. A estratégia inicial, claro, é garantir a presença, para ter massa crítica, ganhar escala e, depois, rentabilizar o negócio. Muitas já atingiram esse patamar e trabalham com políticas de preços mais agressivas. Já existe o senso comum entre os brasileiros de que é melhor comprar uma marca renomada aqui do que lá fora. Paga-se 20% a mais, mas a compra é parcelada, por exemplo.

Mas o consumidor dessas marcas no Brasil viaja muito...

Sim, mas é preciso entender que o consumo não é racional. Eu não vou esperar seis meses para comprar uma bolsa que vi aqui, com o risco de chegar lá fora e não encontrar. Tem o prazer imediato. E, quanto maior a renda, maior a compra por impulso. Quando colocamos na ponta do lápis os 20% de imposto de importação, e várias outras taxas, vemos que o preço já é bem competitivo. Além disso, tem a barreira da língua, o relacionamento com o vendedor. Esse conjunto de coisas tornou o mercado interno mais interessante.

O JK Iguatemi já é o segundo shopping em receita de aluguéis para o grupo. Ele já atingiu o equilíbrio em vendas?

As pessoas esperavam mais um shopping, mas ele surpreendeu, com novas marcas, serviço, eventos. Isso cria mais rapidamente uma clientela e traz um resultado de venda rápido. Estamos longe do ponto de equilíbrio, mas vamos continuar crescendo. Há praticamente uma cidade de quase 25 mil pessoas no entorno do shopping que vai começar a funcionar nos próximos três anos e consumir ali. Hoje, temos apenas a torre Santander.

Venderá mais que o Iguatemi?

O Iguatemi ainda é o grande campeão em vendas por metro quadrado, mas o JK já está em 60% da venda por metro quadrado, o que é um sucesso para um shopping tão recente.

O modelo do JK é único ou ele pode ser replicado?

É único porque o mercado de São Paulo é único. O nível de concentração de renda é muito grande e a cidade é mais formal. No Rio seria outro formato, lá é outra pegada.

Para onde vocês pretendem crescer e que modelo de shopping devem levar?

Temos crescido com projetos de uso misto, com escritórios acoplados, hotéis... O modelo é esse. As estratégias de crescimento são cinco: novos projetos, expansão dos projetos existentes, projetos de uso misto em que ficamos com torres para renda, compra de participação em projetos nossos, além de compra e aquisição de outros ativos que tenham a ver com nossa plataforma. Somos bem vistos no mercado pela coerência dos nossos projetos. Várias companhias sambaram de um lado para o outro, enquanto nós sempre tivemos um norte muito claro.

Como você avalia a competição da JHSF?

A competição é saudável. Somos muito fortes no mercado de shopping centers, crescemos e somos focados nisso. Cada companhia tem sua estratégia. A JHSF está focada em várias coisas. Acho que o mercado gosta quando você entende seu negócio e tem um foco claro. Cada um joga seu jogo e colhe seus frutos. Nunca achei que um mercado como esse fosse de um só.

O Iguatemi investiu em outlets - modelo que não funcionou no País no passado. Por que vai dar certo agora?

Primeiro, porque o Brasil era outro. As varejistas hoje são maiores, têm sobras maiores e há também uma cultura maior de comprar com vantagem. Quando colocamos todas essas variáveis juntas, temos um mercado. Ele não é tão grande como o de shoppings, mas oferece oportunidade.

Ficou difícil lançar shoppings?

Sem dúvida. O Brasil cresceu muito durante quase uma década, mas chega um momento em que a oferta começa a encostar na demanda. Há oportunidades, sim, mas para empresas grandes, com credibilidade e próxima aos lojistas.

Sobre o episódio dos rolezinhos, qual sua avaliação em relação à postura do Iguatemi?

O mundo mudou demais e estamos todos tentando entender como as coisas funcionam. Como é que um garoto convida 5 mil pessoas, de uma hora para outra, usando uma rede social? É uma mudança radical. Nossos negócios não estão preparados para receber essa quantidade de gente. Levamos ao pé da letra a questão da segurança. As pessoas criam teorias mirabolantes sobre coisas simples, práticas: existem normas de segurança e as pessoas precisam estar protegidas.

As medidas adotadas pelo Iguatemi foram interpretadas como preconceituosas...

Nossa preocupação nunca foi discriminar. Foi não colocar em risco as pessoas, as crianças pequenas. Era muita gente e a situação podia sair do controle. Ignorar isso seria lavar as mãos.

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