''O Brasil deve parar de culpar a China''

Para o especialista, a indústria brasileira precisa melhorar a sua competitividade, em vez de culpar as importações

Entrevista com

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

13 de junho de 2009 | 00h00

O Brasil deve elevar a sua competitividade e deixar de culpar as importações pelos problemas de sua indústria, diz Jiang Shixue, que há 29 anos estuda a América Latina na Academia Chinesa de Ciências Sociais (ACCS), cujos trabalhos orientam as decisões de Pequim. "A moeda brasileira não favorece as exportações", diz Jiang, ao Estado.Jiang, que em julho estará em São Paulo para a 3ª Conferência Internacional do Conselho Empresarial Brasil-China, diz também que Estados Unidos, Europa e Japão são mais importantes para a China que o Brasil. Além disso, os chineses estão insatisfeitos com as medidas antidumping contra seus produtos. Outro ponto de atrito está no fato de Brasília não ter formalizado o reconhecimento da China como economia de mercado e ter buscado o apoio do Japão na sua aspiração a uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A seguir, a entrevista. Apesar de a China ter se tornado o principal destino das exportações brasileiras, ainda há um grande temor no Brasil com a invasão de produtos chineses, especialmente industriais. Ele se justifica?Na era da globalização, a competição é a norma. O Japão compete com sua alta qualidade, a China, com o baixo custo da mão de obra, e o Brasil, com as ricas reservas de recursos naturais. O Brasil deveria trabalhar para melhorar sua competitividade e não pôr a culpa nos produtos estrangeiros. A moeda brasileira não favorece as exportações.A taxa de câmbio é fundamental, não? Além da mão de obra barata, a China também tem a vantagem do valor de sua moeda.A China aumentou a cotação da moeda local, mas ainda temos uma vantagem competitiva, quando comparamos ao mercado internacional.E o Brasil não tem uma política que beneficie o setor exportador?Não. Por isso, não pode atribuir a culpa de tudo à China.Qual o risco do aumento do protecionismo e como ele poderia afetar a relação bilateral?Não vejo protecionismo real do lado chinês. A China baixou as tarifas que incidem sobre produtos do Brasil e abriu suas portas para produtos brasileiros. É claro que o Brasil gostaria que a China abrisse a porta ainda mais, mas isso depende de vários fatores. O governo também tem de reconhecer o interesse dos camponeses chineses. E muitas empresas chinesas reclamam que o Brasil usa com muita frequência tarifas antidumping contra produtos chineses. O Brasil anunciou em 2004 que reconheceria a China como economia de mercado, o que complicaria o processo de imposição de direitos antidumping, mas até hoje a decisão não foi implementada. Como a China vê isso?A impressão que fica é que o Brasil não cumpre suas promessas.Mas o Brasil também pode acusar a China de não cumprir a promessa de apoiar a sua pretensão a um assento permanente no Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Mas por que vocês se uniram ao Japão? A China pode apoiar o Brasil, mas o Japão cometeu crimes de guerra. Muitos chineses estão bastante insatisfeitos com a negativa do Japão de reconhecer seus crimes de guerra. Então, por que o Brasil quer ficar ao lado do Japão? Este é o maior problema. Nós entendemos a aspiração do Brasil a uma vaga permanente do CS, mas vocês têm que encontrar um caminho melhor. Devemos separar as questões da economia de mercado e do assento permanente no CS. Um de meus colegas do Ministério do Comércio observou que a participação dos produtos chineses que enfrentam medidas antidumping no Brasil no total das exportações não chega a 3%. Então por que o governo chinês está insatisfeito com as medidas antidumping?A resposta dele foi que, apesar de representarem pouco no total, para algumas empresas é uma grande perda. Esse é o mesmo argumento do Brasil para justificar medidas antidumping. Alguns analistas sustentam que os produtos protegidos são irrelevantes no comércio e o governo deveria deixar que eles enfrentassem a concorrência dos importados. Mas as medidas são aplicadas com a justificativa de que são muito importantes para alguns setores e algumas empresas.Quando dois países desenvolvem relações comerciais, é inevitável que haja disputas. Não pense que é tão sério. Mesmo sem o reconhecimento da economia de mercado, o comércio e as relações entre nossos países estão crescendo.Qual é a importância do Brasil para a China?É importante, mas menos importante que Estados Unidos, Europa e o Japão, que têm mercado, tecnologia, fundos, capital. São atores globais mais importantes. Depois, veem Brasil, Índia, Rússia. O Brasil é importante por ser o maior país na América Latina. Por que o Brasil é importante para a China?Matérias primas, apoio político em várias questões, cooperação na mudança climática, na reforma do sistema financeiro internacional, na Organização Mundial do Comércio. Há muitas maneiras de cooperar. O Brasil dá à China a importância que deveria?Acredito que, para o Brasil, os Estados Unidos e a Europa são mais importantes que a China. É compreensível. Mas, no geral, os dois lados reconhecem a importância um do outro. O Brasil acredita que a China está cada vez mais importante e a China sente o mesmo sobre o Brasil. A diferença é que a China é o maior parceiro comercial do Brasil e o Brasil é o 11º parceiro comercial da China.

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