O Brasil e a economia global

Precisaremos mudar a maneira de nos inserirmos na economia globalizada. A chave é a produtividade

Roberto Fendt, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h00

A organização Mundial do Comércio (OMC) reviu para baixo sua projeção do crescimento do comércio mundial para 2,6%, em face de um crescimento em 2018 de 3%.

Tem sido habitual atribuir essa queda no crescimento do comércio mundial ao conflito comercial entre os Estados Unidos e a China. Como disse o diretor-geral da OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo, com as tensões em alta, ninguém deveria ficar surpreso com esse resultado. “O comércio não pode plenamente desempenhar o seu papel de motor do crescimento quando observamos níveis tão altos de incerteza”, acrescentou. As incertezas com relação ao Brexit também não estão ajudando. E, contrariamente às expectativas do início do ano, uma retomada do comércio em 2019 e 2020 parece não se concretizar.

Essa desaceleração do crescimento do comércio tem também outras causas: 1) tarifas e barreiras não tarifárias compõem uma escalada protecionista que afeta não somente o comércio bilateral Estados Unidos-China, mas a totalidade do comércio mundial; 2) a desaceleração do crescimento em boa parte do mundo; e 3) também é causa do menor crescimento do comércio a volatilidade dos mercados financeiros; entre tantas outras.

A questão que se coloca é se a desaceleração do crescimento do comércio mundial é causa ou consequência de algo mais estrutural. A economia mundial, a partir da crise financeira de 2008, não é mais a mesma dos áureos tempos em que a expansão do comércio trazia a reboque o crescimento da economia global.

Não se trata agora, como em 2008, de uma crise financeira, sem ligação direta com o lado real da economia, a produção de bens e serviços. Alguma coisa mudou nas duas últimas décadas e talvez só agora estejamos nos dando conta da mudança.

O emprego e a produção industrial já não lideram o crescimento das nações. Em parte pela tecnologia e a crescente automação, em parte porque a demanda das famílias por bens e serviços não sustenta a produção.

Num ambiente de grande incerteza com relação ao emprego, famílias poupam mais e consomem menos. Firmas reagem às incertezas freando o investimento. Menores investimentos se refletem em menor crescimento das economias.

Há dúvidas se o crescimento da economia americana se sustentará. Mas já não há mais dúvidas se a segunda economia do mundo está em processo de franca desaceleração. Nossa própria recuperação, embora lenta, ainda está distante de trazer de volta os empregos perdidos pelos desmandos dos governos anteriores.

Não ajudam as incertezas vindas do sul. O eleitor argentino decidiu substituir o governo que pretendeu corrigir os desmandos da política econômica do passado trazendo de volta os próprios causadores desses desmandos. Como isso impactará o mercado que é crítico para nossas exportações industriais?

A retomada de nosso crescimento sustentável demanda racionalidade na política econômica e o crescimento da produtividade de nossa economia. A produtividade está estagnada faz duas décadas. A chave da inserção da competitiva economia brasileira na nova economia global é o aumento da produtividade.

Precisaremos mudar a maneira de nos inserirmos na economia globalizada. Temos somente 1% do comércio mundial e há espaço para aumentar essa participação. A maior abertura ao comércio global trará às empresas brasileiras economias de escala e especialização; e a especialização traz consigo aumentos de produtividade, que beneficiam, em última instância, o consumidor brasileiro.

Demos um importante passo com o acordo Mercosul-União Europeia. Outros acordos permitirão uma maior abertura da economia brasileira ao mercado global, com o aumento da produtividade no País e benefício da maior competição para o consumidor brasileiro.

*ECONOMISTA

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