O Brasil e a transformação do comércio mundial

Opinião

JORGE J., OKUBARO, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2014 | 02h03

A fragmentação do processo de produção em escala mundial se acentuou nos últimos anos, mas o Brasil parece ter optado por ficar distante dessas mudanças. Por isso, é cada vez mais modesta a participação do País nas cadeias produtivas globais, que envolvem diferentes nações e regiões no processo de fornecimento e transformação de matérias-primas e bens intermediários e de produção de bens finais, em geral de maior valor agregado e que respondem por fatias crescentes do comércio mundial. Enquanto no Brasil cresceram as medidas protecionistas, outros países em desenvolvimento tornaram suas economias mais abertas e mais integradas ao processo global de produção. Aí está uma das razões do crescimento mais rápido e sustentado desses países quando comparado com o desempenho do Brasil. Adicionalmente, a maior integração com a economia mundial proporciona maior competitividade, o que impulsiona avanços tecnológicos e modernização do parque produtivo, com ganhos de produtividade - e de renda.

Nas exportações totais dos países em desenvolvimento, a fatia relativa aos bens inseridos nas cadeias globais duplicou nos últimos 25 anos, de acordo com o Relatório do Comércio Mundial 2014, divulgado na semana passada pela Organização Mundial do Comércio (OMC). As exportações desses bens já representam mais da metade das vendas externas totais desses países.

O fato de o Brasil ter ficado entre os últimos em termos de integração às redes globais de produção, numa comparação com as maiores economias do mundo, sugere que o País pode ter perdido o momento mais decisivo dos últimos anos para o desenvolvimento e o crescimento.

De acordo com o relatório, apenas 40% dos produtos importados por empresas brasileiras são utilizados em bens destinados à exportação. Só Argentina e África do Sul, entre as principais economias em desenvolvimento, têm porcentagem menor. À frente do Brasil estão países menos citados no noticiário, mas certamente mais atentos e receptivos às transformações que ocorrem no sistema produtivo global, como Camboja, Brunei e Arábia Saudita.

Definitivamente, não é confortável a posição ocupada pelo Brasil nessa classificação. Ela é liderada por países asiáticos como Taiwan, Cingapura, Filipinas e Coreia do Sul, todos com participação superior a 70% nas cadeias globais. Não parece ser mera coincidência que esses sejam também os países que, nos últimos anos, têm crescido e se modernizado bem mais depressa do que o Brasil.

Sem ter se preparado para a integração à economia mundial, e talvez até tendo fugido dela, o Brasil passou a ser apontado por diferentes parceiros comerciais como o que mais tem adotado medidas de proteção à indústria local, como a aplicação de tarifas de importação diferenciadas para determinados produtos e a exigência de conteúdo nacional.

No entanto, mesmo sem medidas protecionistas como essas - cujo uso se intensificou à medida que a crise mundial iniciada em 2008 passou a afetar mais fortemente a economia local -, o Brasil estaria entre os que mais protegem a produção nacional. É o que constata um estudo publicado no mês passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

Em seu trabalho Comércio e protecionismo em bens intermediários, o técnico de planejamento do Ipea Flavio Lyrio Carneiro mostra que, nos últimos dez anos, enquanto outros países reduziram substancialmente as tarifas de importação, as do Brasil permaneceram praticamente iguais. Houve uma redução muito pequena da tarifa média, de 13,62% em 2003 para 12,96% em 2013. No caso dos bens intermediários, os que permitiriam a integração mais rápida do Brasil às cadeias globais, a redução da tarifa foi de 12,01% para 10,96%. Até mesmo na Argentina sob o governo protecionista de Kirchner a queda da tarifa média foi bem mais acentuada, de 14,55% em 2003 para 7,77% em 2012.

Parte do empresariado industrial apoiou com entusiasmo as medidas protecionistas. Em alguns momentos, dirigentes de entidades representativas da indústria chegaram a pressionar o governo para que as colocasse em prática. Houve ganhos para algumas indústrias, sem dúvida, embora não se possa dizer que também o País tenha ganhado. Graças à proteção, a indústria automobilística, por exemplo, nunca se viu forçada, pela concorrência, a oferecer ao consumidor brasileiro produtos com a qualidade, o avanço tecnológico e a segurança presentes nos similares produzidos em países de economia mais aberta. Mas ela não conseguiu acesso a mercados um pouco mais exigentes, mesmo na América do Sul, contentando-se em exportar apenas para a Argentina, a despeito dos riscos às suas exportações criados pela errática política comercial do governo Kirchner e pela perda de dinamismo da economia argentina.

Reconheça-se que a indústria automobilística não agiu sozinha nesse caso. Ela foi fortemente estimulada a concentrar seu negócios externos na Argentina porque este é, também, o país que, desde 2003, o governo brasileiro trata como parceiro econômico privilegiado. Ao não buscar acordos que facilitassem e estimulassem o comércio com tradicionais compradores de produtos brasileiros, o governo tornou o Brasil dependente do Mercosul nas vendas de produtos industrializados, que por isso encolheram. No intercâmbio com a China, que se tornou o principal destino das exportações brasileiras, o Brasil tornou-se aquilo que nas décadas de 1950 e 1960 se chamava de colônia: passou a exportar matérias-primas e a importar manufaturados.

O resultado é um país mais fechado, cada vez mais dependente de uns poucos e pouco confiáveis parceiros comerciais e, agora, menos apto a aproveitar as oportunidades de transformação e desenvolvimento que o comércio internacional propicia - e que vêm sendo aproveitadas por outros países em desenvolvimento. Repensar esse modelo de política comercial e essa estratégia de relacionamento com o resto do mundo é tarefa urgente do próximo governo.

JORNALISTA, É AUTOR DE 'O SÚDITO (BANZAI, MASSATERU!)', ED. TERCEIRO NOME

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