O Brasil em um espelho turco

Acabei de retornar da Turquia, onde todos comentam sobre o Brasil. Por muitas das mesmas razões pelas quais tornou-se um modismo agitar bandeiras turcas nas manifestações de rua no Brasil, os manifestantes turcos tomam conhecimento do que ocorre em São Paulo e Belo Horizonte.

Barry Eichengreen,

30 de junho de 2013 | 02h15

Os canais de TV e os jornais da Turquia podem não informar muito sobre os tumultos no Brasil, mas a mídia social com certeza sim. Por mais que o governo Erdogan prefira o contrário, o Brasil é notícia no país.

Tanto na Turquia como no Brasil, os cidadãos estão fartos de governos que não respondem às suas necessidades. Observam as autoridades eleitas erigindo monumentos - estádios de futebol de um lado, shopping centers monumentais e réplicas de quartéis otomanos de outro, em vez de fornecer escolas e metrôs que os cidadãos necessitam.

Em ambos os países, chega ao fim a era de forte crescimento que conseguiu dissimular as queixas contra uma administração pública ineficiente e arbitrária e de quando os cidadãos aceitavam a corrupção como o preço do crescimento econômico rápido. Parafraseando Warren Buffett, agora que a maré baixou, observamos que os governos estão nadando nus.

Mas não são apenas as manifestações da população e as ameaças das autoridades de enviar o Exército para reprimi-las que são similares nos dois países. Brasil e Turquia sentiram o efeitos das taxas de juros mais altas sobre a dívida governamental e da desvalorização rápida das moedas.

Além disso, há o choque da China. O crescimento chinês desacelerou para 7,7% no último trimestre, em comparação com os 11% registrados há alguns anos. As taxas de juro interbancárias em Xangai dispararam com as medidas adotadas pelo Banco Popular da China, preocupado com uma bolha imobiliária, deixando de fornecer créditos adicionais para conter a desaceleração econômica. O grau de severidade dos consequentes problemas financeiros e econômicos, e quais países serão mais afetados, é o que ainda veremos.

Em comparação com a Turquia, o Brasil parece ter menos margem de erro. A economia turca tem crescido entre 3,5% e 4%, porcentuais bem melhores do que os 2% a 2,5% contabilizados pelo Brasil. A Turquia, ao contrário do Brasil, não é um país exportador de commodities e, assim, não houve uma redução do seu intercâmbio comercial por causa da degradação dos preços dessas commodities. E não está ameaçada da mesma maneira que o Brasil pela desaceleração do crescimento chinês.

Mas a Turquia tem outros problemas. Está mais próxima e tem um comércio muito maior com a Europa, o que significa que o seu crescimento retraiu por causa da crise da zona do euro.

E, mais importante, a Turquia depende mais dos fluxos de capital de curto prazo, o que a torna mais vulnerável financeiramente. Brasil e Turquia têm taxas de investimento muito similares, mas a Turquia poupa menos. Assim, o seu atual déficit de conta corrente, como parte do Produto Interno Bruto (PIB) é duas vezes maior do que o do Brasil.

Além disso, o governo turco tem sido menos prudente na condução da sua dívida e as dívidas dos bancos e empresas do país. Diante disso, juntamente com o déficit de conta corrente, a dívida a curto prazo em moeda estrangeira terá de ser rolada este ano e a de longo prazo, amortizada. E a Turquia terá de tomar emprestadas divisas no valor equivalente a 25% do PIB, um montante que excede muito as reservas do seu Banco Central.

O Brasil, ao contrário, tem reduzido seu endividamento externo e o Banco Central brasileiro acumulou um amplo estoque de divisas.

Portanto, retendo ou não a confiança dos investidores, a chave para a Turquia é manter o acesso ao mercado. As próximas semanas irão nos dizer. O perigo é que, se o choque Bernanke for associado ao choque financeiro chinês, tornando a Turquia incapaz de rolar sua dívida de curto prazo, o país será obrigado a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI). E é difícil imaginar o FMI negociando com um governo em guerra com seus próprios cidadãos em sua capital, Ancara, coberta de gás lacrimogêneo.

No final, tudo se resume em política. A presidente Dilma Rousseff manifestou simpatia para com os manifestantes e prometeu reformas urgentes. Se cumprir a promessa, os protestos podem amainar.

Inversamente, na Turquia é difícil imaginar uma acomodação entre o premiê Erdogan, cada vez mais autoritário e fundamentalista, e os manifestantes. No melhor dos casos, os protestos nas grandes cidades turcas continuarão indefinidamente, debilitando a autoridade do governo e colocando em dúvida a sua legitimidade. No pior, os protestos serão violentamente reprimidos.

Nenhum dos dois cenários tranquilizarão os investidores estrangeiros.

Inquestionavelmente o caminho a percorrer pela Turquia é bem mais difícil. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Barry Eichengreen é professor de Economia e Ciências Políticas na Universidade da Califórnia, Berkeley. Eichengreen escreve com exclusividade para o Estado  

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