O Brasil entre seus pares

É tarefa difícil encontrar critérios para agrupar países de forma a permitir comparações úteis entre eles ou entre eles e outros grupos. O tamanho da renda, do território e da população, bem como o crescimento provável nos próximos anos, define o nível de importância potencial para a sigla Bric, criada pelo economista Jim O"Neil, do Goldman Sachs, em 2001. O critério, no relatório original - uma competente peça de vendas -, além da simplicidade da sigla, foi a busca de um grupo que caminhava para formar um bloco quantitativamente relevante em termos de renda, comércio e participação no crescimento mundial, não de interesses comuns. A classificação teve o mérito de excluir países igualmente em ascensão à época, como o México, a Indonésia, o Irã ou a Turquia, mas que decepcionaram.

Dionísio Dias Carneiro, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

A Rússia tem bases educacional, tecnológica e militar herdadas da revolução comunista e uma importância geopolítica que sobreviveu à derrota da União Soviética na guerra fria. A China faz sua própria revolução educacional e tecnológica e restaura sua cultura milenar para adaptar o Império do Centro à competição mundial. Depois da adesão formal à Organização Mundial do Comércio (OMC), expande suas relações comerciais e financeiras com todos os países do mundo. Vendedores de matérias-primas, fornecedores de tecnologia industrial ou compradores de produtos manufaturados foram incorporados a uma notável rede de conexões alimentada por enclaves de imigrantes em todas as principais cidades do mundo, de Nova York a Damasco, enquanto a maioria dos economistas fixa a atenção no nível do yuan, que é um fator de competitividade de curto prazo. A Índia vale-se da herança política pós-colonial que lhe permite ser uma democracia de massas reconhecida pelo mundo ocidental, ao mesmo tempo que, a exemplo do Paquistão, tem um processo sucessório enredado em conflitos entre uma herança política dinástica e o vigor das forças de iniciativa capitalista despertadas pela abertura comercial e industrial que sucedeu anos de predomínio estagnante do planejamento socialista.

Nesse quadro, o Brasil tem o pior recorde dentre os Brics nos pontos determinantes do crescimento a longo prazo: educação, capacidade de incorporação de tecnologia aos processos produtivos e facilidades para fazer negócios. Em compensação, tem uma base de recursos naturais e uma população com suficiente diversidade cultural para acomodar o novo dentro de um sistema ocidental legal, não desafiado por heranças culturais cristalizadas. Mas, sobretudo, desfruta de um contexto geopolítico que contrasta com seus pares, pela ausência de disputas territoriais. Mesmo os governos militares gastaram pouco em defesa, bloqueados por acordos militares ou por falta de motivação, que, por exemplo, não faltou à ditadura grega, ao se embrenhar no enfrentamento dos turcos em torno do predomínio político em Chipre. Por isso, o Brasil pode consumir mais - apesar dos governos ineficientes - e, depois do fim da desordem inflacionária, crescer sem agravar as desigualdades.

Os concorrentes vizinhos foram engolfados por seus problemas internos nos últimos 20 anos. Os argentinos têm-se empenhado de forma consistente na tarefa de destruir uma economia que se beneficia do aumento da demanda mundial por alimentos. O México transformou a riqueza petrolífera e a fronteira com os EUA em pesada carga. Os mexicanos hispanizam os EUA sem americanizar sua base tecnológica, educacional e institucional.

Contra esse pano de fundo, o Brasil pode crescer mais e atrair investidores que buscam maior retorno para as suas carteiras. Ganha força o colchão financeiro para a temporada eleitoral tumultuada que começa. Há um novo risco: Lula vai deixar ao sucessor uma herança maldita? As pesquisas eleitorais e as defasagens econômicas aumentam o valor de sacrificar o futuro, que é favorável ao País, em confronto com seus pares. Há financiamento externo para superaquecer a economia em troca de inflação e tumulto para o sucessor. Haverá disposição interna para frear o crédito?

ECONOMISTA. É DIRETOR DA GALANTO CONSULTORIA E DO IEPE/CDG

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