Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

''''O Brasil melhorou muito, mas ainda há vulnerabilidades''''

Para o economista, se turbulência se agravar e houver uma quebra no mercado de ativos, nenhum país escapará de problemas

Entrevista com

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

O Long Term Capital Management (LTCM) ficou conhecido como o fundo hedge dos gênios: era tocado por dois prêmios Nobel de economia, Myron Scholes e Robert C. Merton, ex-vice presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e um dos mais bem-sucedidos operadores de títulos de Wall Street. Após quatro anos de retornos extraordinários de 40% ao ano, o LTCM entrou em colapso, em meio à crise da Rússia, e perdeu US$ 4,6 bilhões em menos de quatro meses. Quase levou para o buraco grande parte do mercado financeiro, antes de ser resgatado pelo Fed, em 1998. Nos últimos tempos, o fantasma do LTCM voltou a assombrar Wall Street. Dois fundos hedge do Bear Stearns quebraram no mês passado. Na semana passada, o BNP Paribas, maior banco da França, congelou os resgates de três fundos hedge, recheados de papéis lastreados em hipotecas de alto risco. O mundo, hoje, está bem menos vulnerável a uma turbulência nos moldes da crise que afetou a Ásia em 1997 (a Rússia em 1998 e o Brasil em 1999), diz Barry Eichengreen, professor de Economia da Universidade da Califórnia e um dos maiores especialistas em crises de países emergentes. Problemas de dívida cambial e déficit em conta corrente, diz ele, ficaram no passado. Mas os países estão expostos a uma crise de outra natureza - uma quebra no mercado de ativos. Abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu ao Estado.O mundo hoje está menos vulnerável a uma crise da mesma magnitude que a crise da Ásia?É difícil saber. De um lado, as políticas econômicas em muitos países da Ásia e América Latina tiveram melhora significativa desde 1997. Mas, de outro, os mercados continuam a se desenvolver muito rapidamente e os órgãos regulatórios não acompanham, criando incertezas e riscos por causa de novos instrumentos. Ainda tenho esperanças de que uma crise como a de 1997-98 possa ser evitada. Mas teremos de esperar para ver quais minas ainda estão escondidas no mercado.O que mudou nos mercados emergentes desde a crise da Ásia?De forma geral, os países emergentes estão com orçamentos mais saudáveis, política monetária mais sólida (metas de inflação), maior volume de reservas internacionais e menos dívidas de curto prazo. Essa combinação de fundamentos sólidos exclui a possibilidade de uma reprise exata da crise asiática, que foi possibilitada pela mistura de grande endividamento externo de curto prazo e baixas reservas internacionais. Mas não exclui a possibilidade de outros tipos de crises, incluindo uma semelhante à desencadeada em 1998 pela quebra do fundo hedge Long Term Capital Management.Quais são as principais diferenças entre o Brasil da época da crise da Ásia e agora?O Brasil está com uma situação fiscal mais sólida, política cambial flexível, administração monetária mais cuidadosa e menos dívida denominada em dólar. Mas esses avanços em políticas não foram acompanhados por melhoras institucionais, como o controle de corrupção , governança corporativa, regulamentação e transparência financeira. Ainda há vulnerabilidades.Vemos uma série de fundos hedge e empresas de hipoteca quebrando por causa da crise do mercado de subprime. O sr. acha que a crise atual pode se espalhar?A grande preocupação é que a crise evolua nos moldes da quebra do LTCM. Até agora, a aposta dos grandes investidores é que não, não há perigo dessa crise se ampliar tanto. Mas os grandes investidores não estão sempre certos. Quando os fundos hedge com grandes apostas em papéis lastreados em hipotecas forem forçados a vender seus títulos do Tesouro, a crise poderia atingir aquele que é o mercado financeiro mais importante do mundo, o de títulos do Tesouro americano. Aí, estaremos à mercê do Banco Popular da China, que terá de decidir se vai vender parte de seus ativos ou vai agüentar a queda de preços dos títulos e aproveitar para comprar mais T-bonds. Nosso destino estará nas mãos do banco central chinês.Quão sério será o aperto de crédito em decorrência da crise de hipotecas? E como vai afetar os emergentes, em especial o Brasil?Até agora, os emergentes têm saído incólumes. Mas isso mudará. Em algum momento, o risco dos emergentes vai subir, as taxas de juros vão se elevar e os ativos vão se desvalorizar. Os países mais vulneráveis são aqueles com maior déficit em conta corrente: Turquia, Islândia e Hungria estão no topo da minha lista. Por sorte , o Brasil não tem déficit em conta corrente ou grandes necessidades de financiamento externo. Mas isso não significa que esteja imune às volatilidades que vêm por aí. Alguns economistas vêm dizendo que podemos estar diante de uma crise diferente da asiática, porque seria uma quebra no mercado de ativos.Como se daria essa crise?Estamos saindo de um longo período de liquidez abundante, em que os investidores estavam estacionando seu dinheiro em qualquer lugar que prometesse retornos. Na prática, qualquer lugar inclui mercado de títulos, mercado acionário e mercado imobiliário da América Latina. Se a retirada de investimentos de ativos arriscados pegar investidores no contrapé, haverá mais fundos hedge e até bancos quebrando. Teremos fuga generalizada de ativos arriscados, maior que qualquer coisa que já vimos. Mercados arriscados vão despencar e isso inclui o Brasil. Se investidores brasileiros forem pegos no contrapé, o País pode também ver alguns fundos hedge e de investimento quebrando, talvez bancos. Viria um grande aperto no crédito e desaceleração econômica. Devemos esperar o melhor, mas nos preparar para o pior.   Quem é: Barry Eichengreen   É professor de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e especialista na análise de crises de países emergentes.   É autor do livro ‘Crises Financeiras’, cuja primeira edição foi lançada no mercado brasileiro em 2003.

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