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O Brasil não corre risco de virar a Argentina, diz Delfim

O deputado federal Delfim Netto (PPB-SP) afirmou hoje que a economia do País passa por um momento grave, mas afastou qualquer semelhança com a crise da Argentina. "Se nossa situação não fosse delicada, não haveria necessidade de ir ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para conseguir os US$ 10 bilhões em direitos especiais de saque nem para receber instruções sobre a necessidade de aumentar o superávit fiscal", argumentou Delfim. "A situação do Brasil é preocupante, mas não tem risco de o País virar a Argentina, é uma coisa completamente diferente", sustentou, em entrevista concedida no Hotel Meliá, onde participou do III Encontro Latino-Americano de Líderes Lojistas.Segundo Delfim, ao contrário do país vizinho, o Brasil tem um sistema fiscal, ainda que precário, em funcionamento, o que permitirá ao governo cumprir a meta de superávit primário do setor público de 3,75% do PIB, para 2002. "E mais do que isso, temos um sistema de metas inflacionárias bastante razoável, além do mais importante de tudo: um sistema cambial que flutua, ele representa um amortecedor para tudo isso." Para ele, o que o Brasil precisa é de um programa que reduza, de fato, a dependência externa. "Basta uma pequena modificação nos fluxos internacionais e já começa a preocupação", avaliou. Quanto à dívida interna, Delfim acredita que a saída é a retomada do crescimento, que levará à queda dos juros.Para o deputado, a equipe econômica do governo nunca teve como objetivo a reduzir a dependência externa e, portanto, não se pode dizer que tenha fracassado nesse ponto. "O objetivo do governo sempre foi tomar lá fora o que podia. Nós fizemos US$ 200 bilhões de déficit em contas correntes, em 8 anos. Estamos, hoje, com um passivo externo líquido de US$ 40 bilhões e uma relação dívida/PIB de 54% a 55%. O País, segundo o deputado, está se financiando a "preços escabrosos".Delfim fez um misto de crítica e elogio para definir sua opinião sobre o minipacote anunciado na quinta-feira (13) pelo governo federal para tentar conter a crise. "Bom, se o governo, que passou de piromaníaco a bombeiro, continuar a usar essa farda, a coisa melhora. A não ser que puxe, de novo, uma tocha. Felizmente acho que a coisa mudou, tenho a impressão que o governo percebeu que estava pondo fogo no próprio rabo."Ao recorrer ao crédito de US$ 10 bilhões no FMI, a equipe econômica fez o que era necessário neste momento: um aperto de liquidez, avaliou Delfim. "O Armínio Fraga é um homem hábil, esperto e inteligente, ele também recebeu permissão para reduzir a reserva mínima (piso das reservas, que era de US$ 20 bilhões) para US$ 15 bilhões e vai usar isso da melhor maneira possível", disse Delfim. "Mas não vamos ter ilusão, é preciso enxugar a economia, que é o que ele provavelmente vai conseguir, também de acordo com o FMI, aumentando o compulsório de 10% para 15% dos depósitos a prazo."Apesar de não poupar críticas à atuação da equipe econômica, Delfim rebateu com ironia as previsões catastrofistas de estrangeiros sobre a situação econômica e política do país. Na sexta-feira, o professor do MIT, Rudiger Dornbusch, previu o "colapso da economia do Brasil até o final do ano" e no sábado passado, o megainvestidor George Soros disse que o mercado teria que escolher entre o candidato do governo ou o caos. "Tenho o maior respeito pelo Dornbusch, mas ele é um economista de extração alemã, de forma que, em geral, trata os probelamas com casca e tudo." Quanto a Soros, Delfim considerou que a avaliação do megainvestidor rperesentou "um caso escandaloso", que agredia a opção brasileira pelo regime democrático.O ex-ministro não deixou de ser irônico ou analisar aspectos do funcionamento das instituicões. "O sistema democrático está funcionando, basta ver como ontem, de madrugada, o Judiciário trabalhou, já estava de pé as cinco horas da manhã", comentou, referindo-se à liminar emitida pelo ministro Nelson Jobim, presidente do TSE, garantindo a realização da convenção do PMDB que aprovou a coligação com o PSDB. "O Legislativo funciona, ainda que de oito leis que a gente aprove, sete sejam promovidas por medidas provisórias, o que quer dizer que somos permanentemente atropelados; até o Executivo, de vez em quando, funciona. Então, não há razão nenhuma para se imaginar que não somos nós, e sim o mercado, quem vai escolher o presidente."Delfim, cujo partido não terá candidato próprio à Presidência, disse que não escolheu em quem votar. "Por enquanto é só conversa mole", disse Delfim, referindo-se às porpostas apresentadas até o momento pelos candidatos. "Quando a campanha começar efetivamente teremos uma visão mais clara. Atualmente, os candidatos não estão expondo suas idéias e sim as idéias que os marqueteiros apresentam, com base em pesquisas junto ao eleitor mediano, ou seja, o candidato só repete a relação de desejos do eleitor", disse Delfim. No entanto, elogiou o candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes. "Por enquanto é o único que se arriscou a falar em reforma tributária."

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