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‘O Brasil não vai virar uma Venezuela’, diz José Olympio Pereira

Para presidente do Credit Suisse no Brasil, a continuidade da agenda de reformas é essencial para a retomada do crescimento do País

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2017 | 02h59

O presidente do banco Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira, não vê um cenário sombrio para o Brasil após as delações feitas pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, que voltaram a criar incertezas sobre a retomada da economia. Para o executivo, o crescimento do País só será comprometido se as agendas de reformas da Previdência e trabalhista não forem implementadas. “O Brasil não vai virar uma Venezuela.” 

Pereira falou ao Estado na quinta-feira, um dia antes da saída de Maria Silvia Bastos Marques, presidente do BNDES. Procurado na sexta-feira, ele disse não acreditar que a saída da executiva piore ainda mais a atual turbulência política e econômica pela qual o País passa. A seguir, os principais trechos da entrevista:

As delações dos irmãos Batista comprometem a retomada da economia do País?

A retomada da economia estava calcada basicamente em um conjunto de medidas que o governo (de Michel) Temer estava implementando. Ele realizou uma série de diagnósticos acertados que precisavam ser feitos e passou a cumprir uma agenda na qual a nação acreditava. Essas medidas foram os pilares da reconquista da confiança, que é o elemento mais importante para o País voltar a crescer. Com a confiança, vêm o investimento, o consumo... Estávamos nesse caminho. 

E agora tudo mudou?

Com a crise, criou-se uma incerteza sobre a continuidade das ações que endereçavam os diagnósticos existentes. As duas principais iniciativas eram a reforma da Previdência, que endereçava a situação fiscal do País, e a trabalhista, que dá uma contribuição muito grande para a melhoria do ambiente de negócios. Essa combinação ajuda a equilibrar as contas públicas e será o principal elemento de desequilíbrio (se a agenda não continuar).

Uma eventual saída de Temer piora esse cenário?

Não tenho bola de cristal. Independentemente de quem será o nosso governante, essas reformas têm de ser aprovadas. A expectativa era de que a reforma trabalhista, que foi aprovada pela Câmara e está no Senado, fosse aprovada no curto prazo. Isso seria um sinal extraordinário à nação. Entendo que a reforma da Previdência precisa de uma liderança forte à frente do governo, que mobilize o Congresso. Ainda não é certo se temos ou não essa liderança. Então, continua um grau de incerteza.

Ou seja, a manutenção dessas agendas é o fator que determinará a recuperação da economia?

Sem dúvida. A continuidade das reformas para a recuperação está muito clara. Falo por mim, pelos meus pares e empresários brasileiros. Para continuarmos no caminho da recuperação, é fundamental mantermos a agenda que existia antes da quarta-feira (dia 17). 

O Brasil já passou por várias crises. Esta é a pior delas?

Eu já vivi isso. Eu me lembro de 1992, que tem semelhança com essa atual crise política, durante o governo Collor (Fernando Collor de Mello). Havia uma agenda positiva e fomos surpreendidos com o depoimento de Pedro Collor (irmão do presidente). Vivemos uma crise bastante longa e doída. Outra crise que provocou momentos de estresse na economia brasileira foi a de 2002, quando o PT, pela primeira vez, se mostrou capaz de assumir o governo. Naquele momento havia muita incerteza, mas era de natureza diferente. 

Na semana passada, o Carrefour anunciou registro de IPO (oferta pública de ações), contrariando a tese de que o mercado dava sinais de total paralisia. 

Nós tivemos o melhor início do ano de mercado de capitais desde 2013. O mercado começou a melhorar a partir do segundo semestre de 2016. E neste ano, até maio, estava indo tudo muito bem. Essa atual situação afeta o mercado. O pedido de registro de IPO do Carrefour denota que a expectativa de todos é de que essa crise não se arrastará por muito tempo. 

Voltando à agenda de reformas, como ficam as concessões para infraestrutura?

Eu apontei os dois principais itens de reforma, mas não são os únicos. O programa de concessões, licitações e privatizações é outro elemento que, ao continuar, ajuda na retomada da confiança. A aprovação da lei de resgate dos Estados é importante. Além disso, há privatizações, como a da Cedae. 

O Brasil ficou mais atrativo para o investidor estrangeiro?

Temos uma sorte danada. O País se tornou estruturalmente atraente para investidores no mundo todo. A maior evidência disso é o maior índice de investimento estrangeiro dos últimos anos. Não obstante termos passado pelo pior período recessivo de todos os tempos, continuamos a ver durante esse período um nível recorde de investimento estrangeiro direto. O que é isso? É confiança no médio e longo prazos. É todo mundo se dando conta de que o Brasil é um destino atraente e que de um jeito ou de outro vamos resolver nossos problemas. Não vamos virar uma Venezuela. 

Quais são as principais dúvidas dos investidores?

Todo mundo quer entender quais as saídas. Nesse sentido, o respeito às regras constitucionais é fundamental.

A Lava Jato ajudou a agravar a recessão? 

Não acho que a recessão foi causada pela Lava Jato. A recessão é reflexo de um conjunto de medidas ruins que se acumularam ao longo dos últimos anos. Atribuir a recessão à Lava Jato é uma absoluta falácia.

Como o sr. vê o cenário para 2018?

Acho que 2018 é um ano chave para o Brasil. Vamos estar diante de uma encruzilhada. Podemos pegar um caminho para nos levar à prosperidade ou nos levar ao retrocesso. A saída para o Brasil reduzir a desigualdade, ter mais inclusão social, passa por essas medidas de equacionamento fiscal, melhoria do ambiente de negócios. Temos de mostrar à população que o caminho é por aí.

O sr. acredita que haverá novas lideranças para 2018? 

Acredito que já temos hoje novas lideranças e outras poderão aparecer. Espero que apareçam lideranças que enxerguem nesse caminho a saída e que estejamos diante de uma escolha de quem melhor saberá implementá-lo. 

E o que seria retrocesso? 

Lideranças com visões erradas, que possam vender um Estado grande, paternalista, com soluções populistas, vendam sonhos e proponham um canto da sereia que encante a população e que possa levar o Brasil ao naufrágio.

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