O Brasil paga mais do que os vizinhos para captar

Os investidores globais cobram mais do Brasil do que de outros países latino-americanos para financiar suas dívidas. Medido pela variação do CDS (Credit Default Swaps), um dos critérios convencionais de avaliação de ameaça de calote, o risco Brasil aumentou muito desde 2010.

O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2014 | 02h04

O CDS com vencimento em cinco anos era negociado, na quarta-feira, a 166 pontos-base, acima dos prêmios do Chile, da Colômbia, do México e do Peru. Em 2010, a diferença entre o prêmio pago pelo Brasil e por esses quatro países era, em média, de apenas 7 pontos-base e, ao longa dessa semana, chegou a 72 pontos-base, segundo o jornal Valor (na quinta-feira, estava em 70 pontos-base). Ela era maior em dezembro de 2013, quando atingiu 99 pontos-base, e tem oscilado muito.

O prêmio do CDS reflete a percepção dos investidores quanto à qualidade da política econômica e aos riscos de deterioração nos próximos anos. Se a inflação permanece bem acima da meta (no limite de tolerância, de 6,5% ao ano, como mostrou o IPCA de julho), se as contas públicas apresentam déficit primário (como ocorreu em maio e em junho) e se a relativa estabilidade do câmbio depende de oferta de swaps pelo Banco Central, a desconfiança dos investidores é, até certo ponto, natural.

Os países que disputam com o Brasil recursos no mercado internacional são mais bem classificados pelas agências de rating e estão crescendo mais. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe prevê que o crescimento da região será de 2,2% no ano, abaixo dos 2,5% de 2013. Mas a queda do PIB brasileiro será maior (de 2,5% para 1,4%), enquanto o México crescerá mais (de 1,1% para 2,5%), o Chile deverá crescer 3% e o Peru, 4,8%. Internamente, as projeções são ainda mais pessimistas: o crescimento é estimado entre 0,5% e 1% neste ano.

Além disso, a contabilidade pública gera desconfianças crescentes. "Essa diferença (entre o risco Brasil e o de outras economias latino-americanas) abriu quando começaram a ficar evidentes as manobras contábeis do governo para ocultar o descumprimento das metas fiscais", afirmou o economista da Consultoria Tendências Rodolfo Oliveira.

Nesse quadro, da nada adianta o enorme esforço do governo para tentar convencer o público de que o Brasil é bem gerido e só não está em melhor situação por culpa da fraqueza da economia internacional e do pessimismo de empresários e consumidores. Os problemas vão muito além de argumentos tão simplistas.

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