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''''O Brasil pode crescer menos''''

Ex-diretor de Política Econômica do Banco Central (BC) e atual diretor-executivo do Banco Itaú, o economista Sergio Werlang viu com bons olhos a atitude do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de reduzir a taxa de juros para redesconto. "É natural haver intervenção dos bancos centrais quando há problema de liquidez", disse ele ao Estado. Werlang acredita que a crise financeira global terá impacto sobre a taxa de juros brasileira. "Se o dólar ficar no nível de R$ 2,10, o juro aqui ficará mais alto do que se esperava, o que reduzirá um pouco o crescimento da economia em 2008.   Ouça a íntegra da entrevista"Como avalia a decisão do Fed?É natural haver intervenção de bancos centrais quando há um problema de liquidez. Na semana passada, havia um empoçamento da liquidez no sistema financeiro europeu e o Banco Central Europeu recomprou US$ 300 bilhões em títulos do Tesouro local. A mesma coisa fez o Fed, com pouco mais de US$ 100 bilhões. Foi positivo e não quer dizer que o Fed reduzirá a taxa de juros. O sr. vê algum problema relacionado ao risco moral?Não há problema de risco moral, pois isso faz parte de uma política normal. Haveria risco moral caso o Fed, diante de qualquer primeiro problema verificado, baixasse a taxa de juros. Por exemplo, se na última reunião (no dia 7 de agosto), eles tivessem baixado o juro, poderia se dizer: ?Poxa, estamos voltando a ter uma política mais expansionista a cada vez que existe algum problema?. Por enquanto, está longe de ser o caso. Para o sr., o que está ocorrendo é crise financeira?Esse problema está localizado em termos de inadimplência e as pessoas não sabem com clareza quem são os detentores de títulos que contêm as partes subprime. Portanto, enquanto ainda tiver um tempo para aparecer tudo o que existe sobre isso - e parece que está tudo em fundos hedge -, ainda haverá alguma turbulência.Há que se lembrar que os bancos centrais estão atentos. Creio que essa volatilidade continuará durante algum tempo e o custo do crédito subirá por causa dos riscos maiores. E o Brasil?Se o dólar ficar nessa faixa (R$ 2,02), o Banco Central muito provavelmente ainda consegue baixar a taxa de juros em 0,25 ponto porcentual na próxima reunião e talvez mais 0,25 ponto. Contudo, se o dólar for para a faixa de R$ 2,10, há uma probabilidade de o Banco Central não reduzir o juro. Há algumas conseqüências disso. Em primeiro lugar, a taxa no Brasil ficaria um pouco mais alta. Em segundo, no ano que vem o crescimento seria um pouco menor. Neste ano provavelmente chegaremos a 5%. Em 2008, ficaríamos na faixa de 4%. Haveria uma desaceleração do crescimento mais acentuada do que imaginamos hoje. Isso com o dólar a R$ 2,10?Exato. Se ficar entre R$ 1,90 e R$ 2,00, vejo que o juro continuará caindo, mas, mesmo assim, um pouco mais lentamente do que pensávamos. Eu particularmente projetava a taxa Selic em 10,5% no fim do ano. Agora, o juro talvez fique em 11%, 11,25%. O mundo inteiro vai crescer um pouco menos. Nos Estados Unidos, em particular, vejo uma queda do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). Uma expansão de 1% nos próximos 12 meses não seria uma surpresa muito grande. O resto do mundo pode absorver isso? Pode, tranqüilamente. O mundo pode continuar crescendo entre 4,5% e 5%. O impacto da turbulência no câmbio comprova que havia um componente especulativo na valorização do real?Sim. O fato de a taxa de juros brasileira estar elevada e o custo do crédito estar baixo lá fora fazia as pessoas investirem aqui quase sem risco. Era uma das pressões para a valorização, a meu ver excessiva, do real.

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2018 | 00h00

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