Mark McQueen/Goldman Sachs
'O Brasil desencantou', diz Ramos Mark McQueen/Goldman Sachs

‘O Brasil poderia atrair muito mais investimentos’, diz economista do Goldman Sachs

Para Alberto Ramos, economista-chefe do banco Goldman Sachs para a América Latina, o risco fiscal do Brasil e a falta de reformas impedem uma entrada maior de capitais

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h50

Na visão do economista-chefe para a América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos, o crescimento dos investimentos estrangeiros no Brasil ocorre por uma combinação de fatores: o avanço da vacinação contra a covid (ainda que lentamente), a melhora da perspectiva de crescimento para economia brasileira, os altos preços internacionais de matérias-primas produzidas pelo Brasil (como minério de ferro e soja), que favorecem setores exportadores, e o aumento da arrecadação federal, que reduziu o risco fiscal. 

Somado a um real ainda desvalorizado frente ao dólar, é natural que as empresas estejam retomando seus planos de investimentos, porque o custo ainda é baixo em dólares. "Agora, a gente não pode se contentar com pouco. O Brasil poderia estar atraindo muito mais investimento direto dado o potencial e a dimensão da economia. Se o Brasil tivesse uma situação fiscal saneada, e outro quadro político, poderia ter um investimento estrangeiro absolutamente extraordinário, mas não tem", diz Ramos na entrevista a seguir:

Como avalia a alta do investimento estrangeiro no Brasil neste ano?

O interesse pelo Brasil e o interesse por investimento estrangeiro aumentou com a volta do crescimento. Há uns meses havia uma perspectiva muito ruim de crescimento, um grande risco fiscal e bastante ruído político. Além do mais, os resultados das empresas ainda refletiam os prejuízos da paralisação durante a pandemia. 

Agora, com a retomada do crescimento, a melhora do resultado das empresas, é normal que elas decidam investir novamente no negócio e que isso leve a uma melhora dos fluxos de investimento. Além do mais, os preços de commodities estão elevados, o que também diminuiu o risco fiscal de curto prazo. A possibilidade de haver uma crise fiscal séria no curto prazo caiu significativamente, pela própria melhora da arrecadação, e com a aprovação do Orçamento e tudo mais.

Houve também alguns avanços em Brasília. A transição da liderança na Camara e do Senado. A Medida Provisória (MP) da Eletrobrás passou. Passou o Orçamento. Há agora alguma perspectiva de pelo menos uma parte da reforma tributária passar. Embora eu seja bastante pessimista sobre esse assunto. Acho que é uma reforma minimalista, bem longe do que o Brasil precisa. Existe também alguma possibilidade, pequena a meu ver, de ter uma reforma administrativa.

Com um quadro de crescimento e risco fiscal de curto prazo contido, isso leva a uma melhora dos investimentos estrangeiros diretos. 

Agora, acho que a gente não pode se contentar com pouco. A gente podia estar atraindo muito mais investimentos dado o potencial e a dimensão da economia. O Brasil com uma situação fiscal saneada, com outro quadro político, poderia ter um nível de investimento absolutamente extraordinário, mas não tem. Não dá para celebrar porque o investimento direto está voltando a crescer um pouquinho.

O que impede uma entrada maior de recursos?

O que impede é o risco fiscal. O Brasil ainda tem uma situação fiscal extremamente débil. Os anos vão passando e as reformas fiscais não avançam. A gente começou a falar do ajuste fiscal quando a presidente Dilma foi reeleita. Era esperado que o Brasil iria voltar a ter superávit primário. Já estamos há 7 anos consecutivos de déficit primário, sem perspectiva de que chegue a um superávit no curto prazo.

Já no governo Bolsonaro, as reformas que aconteceram até agora ficaram bem aquém em relação ao que é necessário. Não dá para celebrar. Ainda temos um nível de dívida sobre o PIB em 80%.

E cada vez que há uma sobra no Orçamento, como agora, há mil e uma maneiras para justificar novos gastos. E o ajuste que é bom, nada.

Como caracterizar o aumento dos investimentos em 2021?

É de curto prazo. A gente precisa de 'n' vezes isso. O investimento é muito baixo. O estoque de capital é baixíssimo. A gente precisa de um aprofundamento da dinamica de investimento, tanto de investimentos locais quanto de estrangeiros. Há um déficit gigante de infraestrutura. O parque industrial precisa se modernizar. Infelizmente o estado que arrecada uma enormidade, gasta uma enormidade e investe pouco. É uma coisa meio disfuncional. O Brasil tributa muito, gasta muito e investe pouco. É uma combinação rara. 

Como está o interesse dos estrangeiros pelo Brasil?

O interesse sobre o Brasil caiu muito nos últimos dois anos. Caiu a ponto de o grande investidor estrangeiro ter se desinteressado. O Brasil desencantou. Agora está voltando um pouquinho. A própria moeda se valorizou, com a subida do juro, com a volta do crescimento. Aos trancos e barrancos, o processo de vacinação está avançando. Começou a haver um pouquinho mais de interesse. Mas em relação ao potencial do Brasil, ainda tem muita estrada pela frente. 

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Empresas estrangeiras miram longo prazo, mas instabilidade no Brasil preocupa

Multinacionais aproveitam a retomada para ganhar eficiência, mas a incerteza da agenda de reformas compromete os planos

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h50

Os últimos 12 meses foram uma montanha-russa para as operações da Tronox no Brasil, um grupo industrial americano com 7 mil funcionários no mundo e especializado na fabricação de dióxido de titânio, insumo químico usado na pigmentação de tintas e plásticos. No ano passado, a demanda pelo produto despencou durante a fase mais crítica da pandemia, e o faturamento líquido da empresa no País chegou a cair pela metade no segundo trimestre, para R$ 78 milhões. 

Nos meses seguintes, porém, a fábrica da empresa, localizada em Camaçari (BA), verificou uma retomada repentina, puxada pela demanda da construção civil e pela necessidade de reposição de estoques. O faturamento deu um salto: chegou a bater R$ 281 milhões no quarto trimestre e se manteve em R$ 226 milhões nos primeiros três meses de 2021.

Com a melhora do mercado, a matriz nos EUA decidiu colocar em prática um plano de investimentos de R$ 137 milhões no Brasil, que era preparado desde outubro de 2019. Os recursos serão usados para modernizar a fábrica em Camaçari, automatizando processos industriais. Também está no radar o lançamento de novo um produto para o segmento de tintas. 

A palavra de ordem, segundo o diretor-presidente, Roberto Garcia, é a “diferenciação” para obter uma margem de lucro maior e competir com concorrentes estrangeiros. “Existe muita concorrência chinesa. Mas a diferenciação do produto e a proximidade com o cliente podem ser decisivos. E já têm feito a diferença agora”, diz. 

O caso da americana Tronox não é isolado. Nos últimos meses, aumentou o número de multinacionais que decidiram realizar novos investimentos no Brasil, de olho na recuperação da atividade econômica. 

Um outro exemplo é o do grupo português EDP, do setor elétrico, que anunciou recentemente investimentos de R$ 10 bilhões até 2025. Eles serão aplicados em três frentes, de acordo com o presidente da operação brasileira, João Marques da Cruz. A primeira delas é na melhoria do serviço de fornecimento de energia elétrica nos municípios atendidos por ela, no Espírito Santo e em São Paulo. 

O plano inclui atualizar equipamentos, construir novas subestações para evitar a interrupção de energia e substituir sistemas de controle para reduzir as perdas. Cerca de R$ 6 bilhões devem ser investidos apenas nesses projetos. Os demais recursos serão usados na construção de linhas de transmissão e na geração de energia solar. No momento em que há o temor de uma crise energética, a empresa quer elevar a produção de energia solar dos atuais 50 megawatts para 1 gigawatt em 2025, um aumento de 20 vezes. 

“Entendemos que é nesse momento que se deve apostar. Temos confiança de que os fundamentos da economia brasileira vão permanecer. E acreditamos que a economia vai crescer e vai precisar de infraestrutura de energia no longo prazo”, afirma Marques da Cruz. 

É também de olho no longo prazo que a montadora Renault anunciou em março um plano de investimentos de R$ 1,1 bilhão para este ano e 2022. Segundo Ricardo Gondo, presidente da empresa no Brasil, o montante deve ser investido principalmente na renovação da linha de automóveis, com o lançamento do novo modelo Capitu e de um novo motor turbo flex, além da chegada de dois novos elétricos, entre eles o Zoe E-Tech. 

Com a retomada da atividade econômica e o crescimento das vendas de veículos, a empresa planejou um novo ciclo de investimento. Segundo Gondo, a expectativa é de que o mercado brasileiro de veículos de passeio e comerciais leves deve chegar a 2,3 milhões de unidades vendidas este ano (18% mais sobre 2020) e a 2,7 milhões em 2022.

O que impede uma recuperação mais acelerada, segundo ele, são as incertezas sobre o ritmo da vacinação, a falta de peças que tem prejudicado o setor automotivo, além de uma dúvida sobre a agenda de reformas econômicas. “O Brasil tem de priorizar as reformas, que ainda não aconteceram – a reforma tributária, a reforma administrativa. O que precisamos é ter segurança jurídica. Precisamos ter previsibilidade. São investimentos enormes e de longo prazo. É isso que vai assegurar futuros investimentos no País”, diz.

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Multinacionais retomam investimentos e elevam entrada de capital no Brasil

Depois de cair ao menor nível em 10 anos no ano passado, o investimento direto no País registra crescimento anual de 30% de janeiro a maio; melhora nas perspectivas para a economia fazem empresas planejarem expansão

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h50

A melhora das perspectivas de crescimento da economia e o avanço da vacinação contra a covid-19, ainda que lento, já fazem empresas multinacionais retomarem os planos de investimento no Brasil, antes paralisados ou prejudicados por causa da pandemia. Nos últimos meses, tem crescido o número de companhias estrangeiras que anunciam novos projetos de expansão, aquisições ou aportes de capital no País. 

O grupo português de distribuição e geração de energia EDP, por exemplo, anunciou recentemente um plano de investir R$ 10 bilhões no Brasil nos próximos cinco anos. A montadora francesa Renault pretende aplicar R$ 1,1 bilhão em sua linha de produção já neste ano e no próximo. A marca de alimentos e bens de consumo Nestlé, da Suíça, fará um investimento de R$ 900 milhões em suas fábricas no País. 

Já a norueguesa Equinor, do setor de petróleo e gás, revelou este mês que planeja investir US$ 8 bilhões, ao lado de empresas parceiras em um consórcio de exploração de petróleo, para iniciar a extração no campo de Bacalhau, na Bacia de Santos, que deve começar a operar em 2024. “Temos uma perspectiva de longo prazo. Até 2030, esperamos investir mais de US$ 15 bilhões”, diz Veronica Coelho, presidente da Equinor no País. 

A retomada dos aportes estrangeiros é vista no indicador de investimentos diretos no País (IDP), divulgado pelo Banco Central (BC). Depois de despencar em 2020 para o menor nível em 10 anos, os investimentos voltaram a crescer. 

De janeiro a maio, a entrada de recursos de empresas estrangeiras somou US$ 22,5 bilhões, de acordo com os dados do BC. O valor é 30% maior do que no mesmo período do ano passado, quando o IDP acumulado foi de US$ 17,3 bilhões. Mas a quantia está abaixo do nível de 2019, antes da pandemia, de US$ 26,1 bilhões. 

Ainda que uma parte significativa do IDP seja composto por reinvestimentos dos lucros obtidos no País, o investimento direto é visto como um recurso de mais qualidade, porque é destinado à atividade produtiva.

A expansão está longe de alcançar os patamares de anos anteriores. Considerando os últimos 12 meses encerrados em maio, os investimentos diretos representavam 2,6% do Produto Interno Bruto (PIB), nível abaixo do registrado nos últimos anos. Entretanto, as condições agora são mais vantajosas para a entrada de estrangeiros. 

“O custo de entrar no Brasil está relativamente baixo, por causa da depreciação do real. É um ambiente favorável para aportes produtivos no curto prazo. É claro que no Brasil há sempre muita incerteza. Mas, seis meses atrás, as perspectivas eram piores”, diz o economista Livio Ribeiro, pesquisador associado do Ibre/FGV e sócio da consultoria BRCG.

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