Wilton Junior/Estadão
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‘O Brasil precisa contestar a China no caso do frango', diz associação de comércio exterior

Para José Augusto de Castro, da AEB, notícia sobre traços de coronavírus em embalagem de frango brasileiro tem fundo comercial

Entrevista com

José Augusto de Castro, presidente da AEB

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 16h39

A divulgação da notícia de que a administração municipal de Shenzhen, na China, encontrou traços de coronavírus em embalagem de frango com origem no frigorífico catarinense Aurora, deve ser alvo de uma contestação rápida e clara do Brasil, de acordo com o presidente executivo da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro.

Castro afirma que o Brasil pode estar sendo usado para fins comerciais e tem sua imagem prejudicada, ainda que a China não venha a impor  um embargo sobre o produto nacional. “O estrago já foi feito. A notícia vale mais que o fato em si. E a gente não viu uma palavra do Brasil contrária ao que foi dito lá.”

O executivo alerta ainda que o momento é de tensão entre China e Estados Unidos – e cutucar o Brasil possa ser uma forma de enviar uma mensagem positiva aos americanos. “O Brasil e os EUA são os dois principais fornecedores de proteína animal à China. Então, cutucar o Brasil pode ser uma forma de afagar os americanos nesse momento.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Levantar dúvidas sobre a carne brasileira pode ter fins comerciais?

Sim. E isso não é de agora. Quando a crise do coronavírus estava mais grave na China, muitos navios ficaram parados nos portos, a ponto de faltarem contêineres frigorificados por aqui. E aí você impõe dificuldade à entrada do produto, para ganhar uma vantagem comercial, um desconto. É mais ou menos o que estea acontecendo agora.

Como o sr. avalia esse caso específico dos traços de covid-19 na embalagem do frango do Brasil?

O estrago já está feito, pois a notícia é mais importante do que o fato em si. O grande concorrente do Brasil no fornecimento de proteína animal à China, os Estados Unidos, têm muito mais casos de coronavírus do que o Brasil. Mas não houve uma palavra contra a carne americana. A China quis cutucar o Brasil para preservar os Estados Unidos, em um momento difícil da relação. Estão fazendo a política de boa vizinhança, com fundo comercial.

E como o sr. vê a posição do Brasil?

O Brasil é um fornecedor e aceita praticamente tudo o que vem de lá – daí essa disposição em cutucar o Brasil. Aí vêm as Filipinas e suspendem a importação do frango nacional, com base na notícia que saiu da China. E os principais clientes da carne de frango brasileira estão na Ásia e no Oriente Médio. Logo, uma notícia dessas ali é muito prejudicial.

E o que o Brasil pode fazer?

O Brasil nunca tomou uma posição ativa (em relação à China), sempre aceita tudo passivamente. Sempre aceita reduzir o preço. Embora a China dependa do Brasil – pois somos o principal fornecedor de proteína e eles têm 1,4 milhão de habitante –, fica parecendo que só o Brasil depende da China. A gente precisa falar da China, dentro de contexto. Porque declarações fora de contexto só prejudicam mais ainda.

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