'O Brasil precisa redefinir as prioridades'

Um ciclo de crescimento se esgotou e para o Brasil ingressar em uma nova etapa terá de buscar um novo modelo

Entrevista com

ALEXA SALOMÃO, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2013 | 02h13

Na avaliação do economista Fabio Giambiagi, o crescimento do Brasil estará limitado a teto de 3% ao ano se o País não adotar novos pilares para a economia. As premissas para a mudança estão no livro Propostas para o Governos 2015-2018 - Agenda pra o Brasil Próspero e Competitivo, que Giambiagi coordenou e chega às livrarias nos próximos dias. Na entrevista abaixo, ele explica parte da agenda.

No livro, o sr. fala que o modelo de crescimento do Brasil se esgotou. Que modelo foi esse? Esgotou-se o modelo baseado na noção de que o problema da economia brasileira era de demanda e que isso se solucionava com políticas expansionistas clássicas - aumento do gasto público, redução da taxas de juros e estímulos ao consumo. Graças a esse modelo, fomos de um superávit em conta corrente a um déficit perto de 4% do PIB, de uma economia que respeitava a meta de inflação a outra que flerta sistematicamente com o teto da meta de 6,5%. Entre 2004 e 2013, esse modelo comeu 4% do PIB da poupança doméstica, que já não era nenhuma maravilha.

Dadas as atuais condições, quanto o Brasil consegue crescer nos próximos anos?

Nos "anos dourados" do Governo Lula, a economia cresceu em números redondos 4% ao ano, com o emprego crescendo em torno de 2,5% ao ano - portanto, a produtividade por homem ocupado crescendo 1,5% ao ano. Aquilo foi possível porque quando o ciclo começou havia um contingente alto de desempregados. Naquele período, a população economicamente ativa crescia 1,5 %. Ocorre que no futuro vão acontecer duas coisas. Primeiro, quando o desemprego alcançar um piso, o crescimento do emprego estará limitado pelo crescimento da população economicamente ativa, que será bem inferior ao do emprego nos últimos anos. E, segundo, por razões demográficas, a população no futuro vai crescer menos: apenas 1 %, em números redondos. Assim, quando a economia voltar a crescer - e vencida a ociosidade que talvez possa estar sendo criada por um par de anos de crescimento baixo -, a capacidade de crescimento do País não chega a 3%. Podemos crescer mais? Sim, mas para isso temos de ter três prioridades: aumentar a produtividade, aumentar a produtividade e, naturalmente, aumentar a produtividade.

O senhor reforça o papel da educação para elevar a produtividade e o governo está investindo mais no setor. É o caminho?.

Destaco o papel da educação, não de mais verbas para a educação. A ideia de elevar o gasto em educação a 10% do PIB é um desses exemplos tipicamente brasileiros em que a emoção vence de 10 a zero um debate que deveria ser racional. Nos próximos 50 anos, o número de crianças e adolescentes vai encolher, de modo que, naturalmente, haverá um aumento do gasto per capita por aluno, mesmo que continuemos gastando o mesmo porcentual do PIB. Também não dá para discutir gasto se não se discute o sistema de gestão. Qualquer pai sabe que há bons e maus professores e que os bons exercem um papel fundamental no aprendizado. O que devemos fazer é reforçar o papel dos bons professores.

Qual seria a nova agenda?

Temos de reorientar prioridades. Limitar drasticamente o crescimento do gasto corrente do setor público. Investir na melhora da gestão pública, para que as políticas nos ministérios sejam implementadas por técnicos qualificados com quadros de carreiras devidamente estruturados e baseados na meritocracia, e não por pessoas indicadas politicamente e de baixa qualificação. Aumentar o investimento. Abrir mais a economia, recriando o ambiente de competição e modernização que vimos nos anos 90, uma época difícil, mas onde se plantaram as sementes da expansão posterior, isso porque as empresas que sentiram a maior concorrência externa aumentaram a produtividade. Empreender um programa massivo de concessões - o que o governo começou a fazer este ano, com dez anos de atraso.

É fácil fazer a transição para esse novo ciclo?

O General De Gaulle na França dizia que era difícil governar um país com 330 tipos de queijo. Nós não temos 300 tipos de queijo, mas temos 32 partidos, o que é ainda mais complicado. Mas veja, estou há 25 anos debatendo assuntos espinhosos. Já passei por situações delicadas: defendi redução dos aumentos salariais em sindicatos, reforma da previdência dos servidores públicos em encontro de servidores e o fim dos benefícios diferenciados para a aposentadoria feminina diante de uma plateia com predomínio de mulheres. E aprendi uma coisa: não se deve subestimar a capacidade de entendimento da população. Ninguém gosta de algumas medidas, mas quando você expõe os argumentos de forma educada e didática, conquista o respeito. Precisamos ser um pouco mais cartesianos e algo menos macunaímicos.

O senhor destaca o papel da liderança nas mudanças econômicas. Poderia explicar melhor essa argumentação?

Eu gosto de repetir como um mantra esta frase: "O papel da liderança política é liderar". De um modo geral, no mundo, as campanhas eleitorais gastam muitos recursos para saber o que a população pensa. Isso faz sentido para vencer as eleições, mas para governar temos de inverter o sentido das coisas. Três coisas que mudaram o Brasil: a URV, as privatizações e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Houve passeatas pedindo isso? Nenhuma. As pesquisas apontavam para isso? Não. O que houve foi liderança, uma capacidade de apontar rumos e uma articulação eficiente para aprovar o que tinha que ser aprovado no Congresso e implementar o que dependia da ação, de uma tecnocracia eficiente. Estive recentemente na Alemanha. Aquilo é uma máquina de crescimento. E nem foi apenas pela Ângela Merkel. Quem fez o serviço, anos atrás, reformando o mercado de trabalho e aprovando reformas, foi Gerard Schroeder. Foi popular? Não. Foi necessário. Graças àquelas reformas do mercado de trabalho, duras e impopulares, os alemães se reciclaram e hoje estão dando um show de competitividade. Imagina se as autoridades alemãs da época tivessem se baseado em pesquisas para decidir o que tinham que aprovar no Parlamento. "Mamma mia." Hoje a Alemanha seria uma grande Itália, com um crescimento raquítico. Insisto: não precisamos de políticos que repitam o que o povo quer. Precisamos de debate e de líderes que apontem rumos.

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