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'O Brasil precisa retomar a ambição de longo prazo'

Economista considera a situação atual delicada, mas diz que o País não pode ficar paralisado pelos problemas de curto prazo

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 22h00

O economista brasileiro Alexandre Scheinkman considera a situação de curto prazo no Brasil delicada. Mas, lançando um olhar mais à frente, avalia que o governo, ao mesmo tempo em que se dedica ao ajuste fiscal, precisa implantar medidas capazes de desatar o nó estrutural. “Não podemos ficar paralisados pelos problemas de hoje”, diz Scheinkman, que vive nos Estados Unidos, e nesta semana estará no Brasil para ministrar a aula magna do doutorado em Economia dos Negócios do Insper. O tema será “A especulação e as bolhas financeiras” – que não deixa de ter uma relação com o passado recente do País. “Houve um certo excesso de otimismo no Brasil e sobre o Brasil.” A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao Estado

O brasileiro médio viveu anos de euforia: trocou de emprego quando quis, ganhou mais, comprou carro, imóveis. Agora o País parece desmoronar. Havia uma bolha no Brasil?

Houve um certo excesso de otimismo no Brasil e sobre o Brasil. A capa da revista The Economist com o Cristo decolando como um foguete é só uma das representações mais conhecidas. De fato, havia bons sinais a favor do Brasil, e nas histórias de bolhas há sempre uma justificativa real. Mas nem o Brasil estava tão bem naquela época, como diziam, nem está tão mal quanto dizem os mais pessimistas hoje. 

Mas neste ano a previsão é de uma queda de 2% no PIB, que só não será pior do que a de 4,35% no governo de Fernando Collor de Mello... 

A história sempre se repete, mas de maneiras diferentes. O período Collor foi muito ruim. Não estamos nem perto da inflação herdada por ele do governo José Sarney e que ainda foi combinada com as barbeiragens de seu próprio governo. Mas mesmo com todas as besteiras que fez, Collor iniciou uma abertura mais rápida da economia que beneficiou muito o Brasil nos anos seguintes. Estou querendo dizer que, mesmo quando estamos no pior dos momentos, no curto prazo, é importante pensar nas reformas estruturais que vão ter um impacto importante no longo prazo. O Brasil precisa retomar a ambição de longo prazo. Não podemos ficar paralisados pelos problemas de hoje. O governo deveria atuar em dois lados. No primeiro já está trabalhando – reduzir o déficit primário. Mas há outras questões, de longo prazo. O problema foi relatado no trabalho feito por Mansueto, Samuel e Marcos (os economistas Mansueto Almeida, Samuel Pessôa e Marcos Lisboa). Eles mostram que as contas públicas, independentemente das confusões fiscais criadas no quadriênio passado, estão indo numa má direção, e isso foi escondido por aumentos de impostos. 

Entre os gastos engessados está o da educação, que cresceu muito, sem os efeitos esperados. O sr. é um estudioso do efeito da produtividade sobre o crescimento. Por que o País não avança aí?

Precisamos voltar atrás no tempo. Na década de 80, o Brasil de fato investia pouco em educação, mesmo comparado a países do mesmo nível de renda. Havia a necessidade de aumentar o gasto com educação. Eu fui uma das muitas pessoas que falaram sobre isso. Mas não se pensou em como gastar esse dinheiro bem. Sabe-se pouco sobre o que funciona na educação brasileira. Vou explicar a importância disso. Quando um sujeito abre um botequim e começa a fazer sucesso vendendo um tipo de pastel novo, todo mundo começa a imitar e a tentar fazer o mesmo tipo de pastel. É assim que a economia funciona: alguém faz algo bom, os outros copiam e todo mundo passa a ter um pastel mais gostoso. Em educação a gente não faz isso. Um escola que, por acaso, estiver fazendo a coisa certa, não vai ser copiada por outras escolas – o que seria o mínimo para se aumentar a eficiência. No que se refere a ganhos de produtividade, pouca coisa é criada do zero. A maioria é por imitação. 

Uma reforma defendida é a da lei trabalhista. O governo até flexibilizou, mas até agora a medida está restrita a alguns setores, que já foram beneficiados por medidas anteriores...

A gente faz reformas, muitas vezes, pela metade, por isso, não são bem-sucedidas. Economias modernas, em crescimento, estão organizando o trabalho de uma maneira mais eficiente. Deixa eu dar outro exemplo, muito importante, que tem efeito para o crescimento e para a produtividade: a abertura da economia. Nesse ponto, o Brasil regrediu em relação ao resto do mundo. Está fora de muitas cadeias de produção. O México está mais integrado do que o Brasil. Nós continuamos com aquela visão de que temos de produzir tudo no Brasil. Esse é um problema sério. Vou dar um exemplo americano: os smartphones dos Estados Unidos. Os aparelhos, na maioria das vezes, são fabricados no estrangeiro, mas o valor adicionado americano em termos de desenvolvimento de tecnologias é enorme nesses aparelhos. Seria um tiro no pé se o governo americano decretasse que todas as peças deveriam ser produzidas nos Estados Unidos.

Muitos economistas veem na exportação a saída para a crise, mas ela ainda não reagiu. Em parte é por essa razão?

Há gargalos imensos no Brasil que atrapalham. Exemplo: a agricultura é muito eficiente, mas para chegar no porto sofre com a infraestrutura. Isso afeta o desempenho global. Sempre tivemos uma infraestrutura relativamente atrasada, mas os últimos governos atrasaram ainda mais.

Por quê?

Eles abandonaram o sistema de regulamentação e privatização adotado no governo de Fernando Henrique Cardoso e colocaram no lugar um sistema que não atraia investidores. 

Há outro programa de concessões...

Ele é muito mais parecido com o programa feito pelo presidente (Fernando Henrique) Cardoso, mas não dá para saber se e quando vai funcionar. Teria sido muito mais fácil atrair investidores quando estava todo mundo animado com o Brasil. Outro exemplo: houve muito interesse pelo petróleo do pré-sal, mas enquanto o Brasil tentou desenvolver uma capacidade própria para o pré-sal e mudava o marco regulatório do petróleo, vieram as descobertas do “shale gas” (gás de xisto) e do petróleo nos Estados Unidos. Felizmente, para os americanos, não existia lá uma ‘shalebrás’ e um marco regulatório dizendo que uma estatal concentraria a produção. E eles produziram logo. Isso teve um benefício enorme para a economia americana. Reduziu os custos de produção e deixou a energia mais barata.

O governo alega que estamos sentido agora reflexos da crise internacional de 2008, atenuada esses anos todos por medidas que ele adotou...

Não. Essa crise é nossa. Principalmente a crise de curto prazo, que reflete não aquelas medidas adotadas pelo governo para atenuar a crise internacional de 2008. Reflete a manutenção daquelas medidas, a forma como elas foram implementadas e os gastos que elas geraram. A crise de curto prazo é fruto dessas três coisas. Como outros países, o Brasil fez políticas monetária e fiscal mais soltas quando veio a crise aqui (Scheinkman vive nos Estados Unidos). Mas também tomou algumas medidas que não tinham nenhuma relação com o combate dela. Não havia justificativa, a partir da crise, para controlar o preço da gasolina. Não havia justificativa para complicar ainda mais o sistema de impostos, criando isenções para setores selecionados. Nem para volume de gastos públicos se prolongar até o final do ano passado. No resto do mundo, os países que adotaram medidas monetárias e fiscais para combater a crise saíram delas de maneira relativamente rápida. 

Já se sabia que 2015 seria um ano difícil, mas surpreendeu a velocidade e a profundidade da deterioração...

Houve toda uma desorganização da economia brasileira. A crise já era grave em 2014 e medidas tomadas para disfarçá-la, essencialmente eleitoreiras, pioraram a crise. 

O fato de o governo ter reduzido a meta de superávit primário tem relação com os efeitos dessa desorganização, como o sr. falou?

A questão da revisão da meta é uma história um pouco mais complicada. A meta já era otimista. Muitas pessoas já falavam que era inalcançável, que seria preciso uma meta mais baixa. 

É possível prever quando as coisas ficarão em ordem novamente?

Está difícil fazer qualquer previsão. A previsões feitas há seis meses não se concretizaram. Os números são outros. O ministro Levy (Joaquim Levy, ministro da Fazenda) está fazendo uma tentativa de controlar os gastos públicos. Quando isso vai dar frutos depende de um monte de coisas, entre elas, de eventuais novas medidas de gastos que podem surgir. Tivemos surpresas no Congresso, como a aprovação de uma nova regra para aposentadorias e o aumento do Judiciário, que foi vetado, mas não se sabe onde vai dar.

O Legislativo demonstra uma força maior. A participação, na forma como vemos, é um avanço institucional? 

Uma democracia funciona melhor quando tem um parlamento ativo. Mas, ao mesmo tempo, é preciso que os legisladores tenham consciência de que suas medidas não vão apenas afetar o atual governo. Vão afetar o País. De uma maneira mesquinha, precisam lembrar que podem afetar, talvez, o seu próprio governo na lá frente – se eles chegarem ao governo. O que eu vejo é que certas lideranças, que deveriam estar ajudando no ajuste fiscal, tomaram uma posição neutra e até antagônica. Essa é uma atitude quem não pensa no futuro.

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